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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

"WORKSHOP" ADAPTAÇÕES CLIMÁTICAS LISBOA: 3 de Novembro de 2015 - 14:30

















Exmos. Senhores,   
Vimos por este meio apresentar o projeto ClimAdaPT.Local, na sua fase atual, bem como convidá-lo(a) para participar numworkshop de debate sobre a adaptação deste município às Alterações Climáticas.     
A Câmara Municipal de Lisboa é parceira do Projeto ClimAdaPT.Local, coordenado pela Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e financiado pelo Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (MFEEE/EEA-Grants) e pelo Fundo Português de Carbono.     
O projeto, de acordo com a Estratégia Europeia de Adaptação às Alterações Climáticas (AC) e a Estratégia Nacional de Adaptação às AC, tem cinco grandes objetivos:  
1-Promoção e disponibilização do conhecimento local sobre AC;  
2-Criação de uma comunidade de agentes municipais sensibilizados para o tema e capacitados para utilizar ferramentas de apoio à decisão em adaptação;  
3-Redução de barreiras e constrangimentos ao envolvimento de agentes locais em processos de adaptação às AC;  
4-Integração da adaptação nos processos de planeamento e decisão dos agentes municipais e sectoriais; 
5-Definição de medidas de adaptação às AC a nível local.     
O ICS ULisboa - Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, enquanto parceiro do projeto, ficou responsável pelo envolvimento dos atores-chave (sob a coordenação do Prof. João Ferrão e da Profª Luísa Schmidt). Nesse âmbito, tem vindo a colaborar com a autarquia na identificação de atores-chave locais, cujos contributos possam ser utilizados na elaboração de uma estratégia municipal especificamente dedicada à adaptação às AC.     
É nesse sentido que o(a) contactamos para o(a) convidar a participar num workshop dedicado à apresentação e debate das Opções de Adaptação do município. Nesta sessão serão também recolhidos contributos para a Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas (EMAAC).     
As EMAAC constituirão um significativo avanço no processo de adaptação local às alterações climáticas, nas suas vertentes ambientais, sociais e económicas, tendo impacte nos sectores da Energia e Indústria, Biodiversidade, Agricultura e Florestas, Segurança de pessoas e bens, Ordenamento do território, Recursos hídricos, Saúde humana, Turismo e Zonas costeiras.     Assim, consideramos muito importante a sua participação.     
O workshop contará com a participação dos técnicos autárquicos responsáveis pela identificação das vulnerabilidades locais às Alterações Climáticas, bem como de decisores políticos da autarquia, para além de outras entidades parceiras do projeto, estando a sua moderação sob a responsabilidade da equipa ClimAdaPT.Local.     
Este evento realizar-se-á no dia 3 de Novembro de 2015, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, entre as 14h30 e as 19h30, e incluirá apresentações e mesas de debate. Será servido um lanche. 
Em breve será contactado(a) pela equipa do ICS-ULisboa via email (climadapt.local.workshops@ics.ulisboa.pt) ou telefone (21 780 47 97), para lhe fornecer os detalhes logísticos necessários.        
Agradecendo a sua disponibilidade para participar no workshop,     
Com os melhores cumprimentos,           
José Sá Fernandes

quinta-feira, 24 de julho de 2014

LX GARDENS: apresentação dos resultados
















Apresentação dos Resultados do Projeto LX GARDENS - Jardins e Parques Históricos de Lisboa:

Estudo e inventário do património paisagístico.

Research Project funded by FCT PTDC/EAT-EAT/110826/2009   

29 de Julho de 2014 às 14h00 na Sala de Atos  
Instituto Superior de Agronomia  - Tapada da Ajuda - Lisboa

sábado, 31 de maio de 2014

«Perfurações no Príncipe Real são para parque de estacionamento»

As sondagens que decorrem no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, estão a cargo da Empark, que pretende ali criar um parque de estacionamento. A autorização foi dada por três vereadores da Câmara de Lisboa. A empresa promete 90 lugares só para moradores e a preservação do histórico jardim.
"Os trabalhos que neste momento estão em curso no local são as sondagens com vista ao estudo e monitorização hidro-geológica do terreno", revelou, ao JN, Paulo Nabais, diretor-geral da Empark, após a notícia sobre a perfuração das laterais daquele espaço.  Segundo Nabais, este estudo conta com a aprovação e acompanhamento da Direção-Geral do Património Cultural. Há também um "acompanhamento permanente dos técnicos da Câmara", a quem a empresa "pagou as respetivas taxas municipais para efetuar as sondagens".  Além da empresa Geocontrole, cujos trabalhos deram origem à notícia do JN, a Empark conta com a colaboração um reconhecido especialista em geologia e o acompanhamento permanente de um arqueólogo.  "A Empark já fez milhares de estudos para a construção deste parque, incluindo o levantamento pormenorizado do aqueduto nesta zona que nenhuma entidade tinha feito até ao momento", realçou Nabais, frisando a enorme experiência da empresa em Lisboa nesta área e dos 27 parques de estacionamento que detém.  
Aprovação de Salgado, Sá Fernandes e Nunes da Silva

in Jornal de Notícias 30 Maio 2014

Nota: a LAJB estará solidária com outras associações e movimentos cívicos na defesa deste emblemático espaço verde da nossa cidade - NÃO ao estacionamento em caves no Principe Real!

segunda-feira, 31 de março de 2014

«Colina de Santana. E a paisagem?»

As paisagens foram sempre alteradas ao longo dos tempos, ou por modelação da natureza ou para satisfação das necessidades e aspirações das populações. Com os conhecimentos, técnicas e políticas de participação de que dispomos, só é sério encarar as alterações, após o estudo das funções a desempenhar pela parcela a alterar, no todo de que faz parte. Este estudo deverá ser ainda mais profundo, quando se trata de uma área tão singular como a Colina de Santana. Ecologicamente identifica-se a Colina como uma cabeceira importante, de significativa permeabilidade, separando vales fundos que drenam directamente para a Baixa e estuário, afectada fortemente por "ilhas de calor", com vulnerabilidade sísmica e proporcionando vistas excelentes. Urbanisticamente, os espaços hospitalares dominam o espaço residencial consolidado, com um quarto dos fogos vagos, uma carência acentuada em espaços verdes e mobilidade suave deficiente.

A reconversão urbana da Colina constitui uma oportunidade excepcional para promover: o usufruto da qualidade patrimonial e cénica, a melhoria da acessibilidade, a regularização microclimática, a infiltração e retenção de água no solo e subsolo e a colmatação da carência em espaços públicos. Assim, deverão assegurar-se três processos essenciais. A recuperação do património edificado e paisagístico, promovendo usos contemporâneos em resposta às carências e aspirações identificadas, com contenção das volumetrias edificadas; o estabelecimento de uma consistente estrutura ecológica e de lazer, introduzindo: gradientes (circulações atmosféricas e hídricas fundamentais); espaços abertos; uma rede coerente de contínuos (plantados, pedonais e cicláveis); médias e vastas manchas de vegetação arbóreo-arbustiva, privilegiando áreas de cabeço, maior vulnerabilidade a riscos naturais e a ligação com os jardins, cercas, claustros e logradouros existentes; predomínio de pavimentos permeáveis e semipermeáveis. A valorização cuidadosa do sistema de vistas de e para a Colina. 

in PÚBLICO, 12 de Março de 2014, por Margarida Cancela d'Abreu (Associação Portuguesa de Arquitetos Paisagistas).

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Curso "Planeamento em permacultura" 3ª edição na Fundação de Serralves

Permacultura significa "cultura permanente” e trata de planear habitats humanos sustentáveis. É uma filosofia e uma abordagem ao uso do solo que interliga clima, plantas, animais, ciclos de nutrientes, solo, gestão da água e necessidades humanas em comunidades produtivas e eficientes. Este termo conhece a sua origem com Bill Mollison e David Holmgren, e tem inspirado diversos movimentos sociais na direção de vidas socialmente mais justas e ecologicamente sustentáveis, como é o caso das «cidades em transição», liderado pela primeira vez pelo permacultor Rob Hopkins.

Depois das boas experiências com os cursos organizados em 2012 e 2013, onde se transformaram espaços e mentalidades, lançaram-se sementes à terra e germinaram novos projetos.


O Serviço Educativo de Serralves, em parceria com a Quercus, quer dar continuidade a esta aprendizagem e partilha de experiências. Este curso oferece uma viagem de seis fins de semana alternados pelo mundo da Permacultura, será ministrado em português e os participantes que cumprirem todas as horas de formação obterão um certificado oficial da «British Permaculture Association» de realização de um "PDC – Permaculture Design Course” – o curso de 72 horas criado por Bill Mollison.
 
Objetivos do curso
-Ensinar e difundir a Permacultura.
-Orientar os participantes num caminho de transformação para uma vida mais ecológica, sustentável e natural. - Oferecer um curso completo de Permacultura no Porto, em horário acessível a quem trabalha.

-Ensinar a Permacultura na cidade, proporcionando ainda experiências no campo.

                                                                                   
Organização: Serviço Educativo de Serralves em parceria com a Quercus
Formadores: Yassine Benderra, Joana Costa

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Projectos de Loteamento de 4 Hospitais Civis de Lisboa: contributo da LAJB


Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Dr. António Costa
 
Projetos de Loteamento do Hospital Miguel Bombarda, Hospital de S. José, Hospital dos Capuchos e Hospital de Santa Marta em Lisboa
 
Participação da Associação “LIGA DOS AMIGOS DO JARDIM BOTÂNICO”
 
No âmbito da abertura da discussão pública relativa a quatro pedidos de informação prévia sobre a viabilidade da realização de quatro operações de loteamento nos hospitais da Colina de Sant’Ana – Hospital Miguel Bombarda, Hospital de São José, Hospital dos Capuchos e Hospital de Santa Marta, publicitada pela Câmara Municipal de Lisboa, a Liga dos Amigos do Jardim Botânico (LAJB) no cumprimento dos seus deveres enquanto associação cívica, considera que:
 
1-A escala dos sítios, a importância dos imóveis, e o facto de estarem em análise quatro projetos em simultâneo, não tem correspondência com o prazo de doze dias para os cidadãos se pronunciarem; doze dias é totalmente insuficiente, porque impossibilita logo à partida uma real participação e a defesa do bem comum; estamos perante uma transformação urbana inédita na história recente de Lisboa, seria pois uma grande irresponsabilidade decidir o futuro destes lugares em 12 dias.
 
2- No geral, a planeada transformação radical destes antigos 4 espaços conventuais reflete uma preocupante falta de consideração pelas pré-existências. Para além da preservação dos imóveis classificados, não é feito esforço significativo para integrar outras estruturas, adaptando-as a novas funções e usos. A lógica que guia as propostas é a de demolir tudo que não esteja classificado para assim cumprir com o objetivo primordial, e talvez único, da ESTAMO: fazer negócio de forma especulativa. Esta intenção de maximização dos terrenos não é escondida como facilmente se constata ao ler, por exemplo, a argumentação da autora do projeto para a demolição de estruturas arquitetónicas no Hospital de São José. No levantamento de dois interessantes edifícios da Arquitetura do Ferro, a antiga Central Térmica e a Lavandaria (1906), a sua destruição é justificada da seguinte forma:
 
«Considera-se que o relativo interesse arquitetónico deste conjunto industrial não justifica, por si só, a sua conservação. Uma vez que no estudo em curso se está a revelar a dificuldade de integração deste conjunto, propõe-se a sua demolição.»
 
Ou seja, é assumido que o projeto que a ESTAMO tem para este espaço é mais importante que a manutenção, restauro e adaptação a novos usos de edifícios que fazem parte integrante da história do lugar e que até se admite ter valor patrimonial. A palavra de ordem não parece ser a da sustentabilidade, reciclagem de edifícios, mas sim como conseguir libertar terrenos para novos edifícios – no caso da antiga cerca conventual de S. José são propostos 58.824m2 de construção nova. Não é esta lógica que esperamos ver aplicada numa cidade histórica na Europa como é Lisboa. Integração, reciclagem e reabilitação, deveriam orientar as propostas numa perspetiva de sustentabilidade ambiental, combinada com uma genuína apreciação e respeito pelas diversas realidades patrimoniais presentes (uma cozinha do séc. XIX é menos importante que um claustro do séc. XVII?).
 
Há uma clara ênfase na libertação de áreas de terreno das antigas cercas para criar oportunidades de construção nova. Para isso são sacrificados edifícios aparentemente menores e menos importantes, esquecendo que no caso de um “território hospitalar” cada peça conta uma história, e é o conjunto e não os “monumentos” isolados que constitui o valor destes territórios-cercas.
 
Um exemplo deste extremismo é o da proposta para o antigo Hospital Miguel Bombarda. Aqui se propõe a destruição de todos os equipamentos daquele único e raro complexo hospitalar do país, exceto 5 imóveis (3 deles protegidos por lei). O autor do projeto propõe, sem justificação, a demolição de edifícios notáveis como as Cozinhas (F1), a 1ª e 2ª Enfermarias/Cantina (E1), a 5ª e 6ª Enfermarias (E2), o Antigo Telheiro para passeio dos doentes (F1), as Oficinas (G1 e G2) e o Hospital de Dia (H1). Seriam removidos do conjunto um total de 16 imóveis, na sua grande maioria com interesse arquitetónico e histórico. Lembramos que muitos destes imóveis valem pelo seu conjunto pois exibem a lógica da medicina da época. Manter apenas 5 imóveis, isolados e descontextualizados, é apagar de forma brutal a história única deste sítio.
 
Notamos um tratamento um pouco antiquado dos imóveis classificados: parecem ser reduzidos a “monumentos”, objetos isolados – veja-se o caso do Pavilhão de Segurança onde se propõe um jardim e um lago na sua face poente. Mais importante do que embelezar a envolvente deste imóvel classificado seria manter os restantes equipamentos que lhe dão contexto. Em vez disso, e após demolição de um total de 16 edifícios, é proposto um brutal complexo de 6 torres de 12 andares. Os edifícios classificados ficam reduzidos a objetos decorativos, “enfeitando” o jardim do novo condomínio. Este mega edifício será o novo protagonista da antiga cerca conventual, um protagonismo conquistado por rotura com a longa História do Hospital Miguel Bombarda. Porque até o interior silencioso e perfeito do pátio circular no Pavilhão de Segurança será perturbado pela visão agressiva e desnecessária, das torres nº 3, 4, 5 e 6. Infelizmente não é apresentada nenhuma imagem/estudo que mostre o impacto negativo destas torres nos edifícios classificados.
 
3- As quatro propostas apresentam levantamentos patrimoniais e fotográficos claramente insuficientes do edificado existente e dos valores culturais dos lugares. Também mostram grandes inconsistências ao nível do investimento na caracterização e significação histórica dos sítios.
 
Por exemplo, a proposta para o Hospital Miguel Bombarda limita, inexplicavelmente, o levantamento fotográfico do local a uma página A4 com 7 imagens, não legendadas, ou seja omite deliberadamente a informação exaustiva sobre todos os edifícios. No caso de um cidadão que não conheça o sítio, como poderá elaborar uma opinião crítica e válida se a proposta da ESTAMO não fornece informação minimamente completa? Ainda neste projeto é de notar a chocante pobreza do «Enquadramento Histórico» na Memória Descritiva, reduzida também a uma página A4.
 
Se os restantes projetos parecem ter investido um pouco mais na caracterização histórica dos sítios, não podemos deixar de criticar o facto de não terem sido realizadas por profissionais independentes. Na verdade, em todos os projetos tais levantamentos/cronologias da História dos sítios não estão assinados por Historiadores mas sim pelas equipas de projetistas. É pois legítimo perguntar se é correto para a cidade e as gerações futuras, que a decisão sobre o que pode ou não ser demolido/construído fique a depender apenas da opinião de 4 arquitetos. Tamanha responsabilidade não pode, nem deve, ficar nas mãos de apenas um dos técnicos intervenientes neste processo. É essencial consultar Historiadores independentes, o ICOMOS e a ICOM, por exemplo.
 
4- Outra prova da falta de estudo e reflexão sobre o tema da integração dos edifícios existentes, independentemente da época de construção e de estarem classificados ou não, é o facto de não se apresentarem ideias coerentes para a sua futura ocupação – para além do fácil e já banal “hotel de charme”.
 
Com o encerramento destes hospitais a cidade está na iminência de perder milhares de postos de trabalho no centro histórico (com todos os pequenos negócios que durante décadas e até séculos se desenvolveram na sua envolvência) e tudo o que a ESTAMO parece imaginar é um cenário de habitação (que tudo indica será de luxo), hotéis de charme e pouco mais. Será este um cenário realista e desejável? Ou meramente especulativo e nefasto? Com o parque habitacional da cidade histórica a precisar de urgente investimento na reabilitação, e a diminuição da população nacional, não nos parece de todo viável nem aconselhável investir na demolição massiva de edifícios, únicos e recuperáveis, seguida de milhares de m2 de construção nova.
 
A regeneração urbanística da Colina de Sant’Ana talvez deva passar mais por uma estratégia de transferência de instituições culturais para estes antigos espaços conventuais/hospitalares. Por exemplo, porque não se equaciona a fundação do grande Arquivo Municipal no Hospital de São José? E em vez da construção de um novo edifício para a Biblioteca Municipal Central porque não pensar num antigo convento-hospital como se tem feito noutras cidades europeias? Universidades e Museus Nacionais, alguns deles ainda mal instalados, poderiam também habitar de forma bem mais sensível estes antigos complexos conventuais/hospitalares.
 
5- Na generalidade, com exceção da proposta para o Hospital de Santa Marta, as zonas verdes são praticamente assumidas como espaços verdes de enquadramento das novas construções ou dos imóveis classificados. De facto, apenas no projeto para Santa Marta se nota um esforço claro de recuperar os “vazios” da antiga cerca conventual, devolvendo assim à cidade uma grande zona de solo permeável e amplamente arborizada. Aplaudimos esta referência à memória da fundação conventual do lugar, com oportunas vantagens e relevância para a cidade do presente e os seus desafios ambientais.
 
Nos restantes projetos impera uma solução do tipo “urbanização” das cercas conventuais ocupando as sobras com espaços verdes. Estamos totalmente contra esta opção uma vez que não só faz tábua rasa dos vários níveis culturais que ao longo dos séculos se foram instalando mas também porque acaba por uniformizar, urbanisticamente, estas antigas cercas. Estes espaços fechados, cercados por altos muros e povoados por diversos edifícios de diferentes períodos históricos, estão agora em risco de se transformarem em novas áreas de ocupação urbana, com soluções do tipo quarteirões/edifícios. O sentido de cerca fica comprometido. Um exemplo desta “banalização” do espaço é a proposta para a cerca do Hospital de S. José onde se propõem cerca de 6 novos edifícios de grande massa para a área da antiga cerca conventual. Embora a cércea não ultrapasse a do antigo hospital, a excessiva volumetria compete claramente com a do hospital, retirando-lhe a proeminência e destaque que nos parece ser essencial manter e assegurar.
 
De igual forma, mas levado ao extremo, são as 6 torres de habitação de implantação violenta no coração da cerca do Hospital Miguel bombarda. Os novos edifícios não deveriam competir desta forma, um pouco desleal, com as pré-existências históricas.
 
A nosso ver a raiz do problema é que a ESTAMO não vê estes espaços como algo a tocar com mão leve e delicada, mas sim como áreas a lotear, a urbanizar.
 
Com o encerramento destas 4 unidades hospitalares, podemos recuperar espaço livre, com solos permeáveis e arborizados. Esta é de facto a última oportunidade que a capital tem de criar facilmente novas zonas verdes em pleno centro histórico, devolver os “vazios” tão essenciais a uma boa qualidade de vida urbana. Nunca é demais chamar atenção para esta oportunidade única que se oferece a Lisboa.
 
EM CONCLUSÃO
 
É bom recordar que todos estes espaços estiveram durante séculos ao serviço das pessoas, numa lógica do bem comum. Esta tradição deve ter continuidade. Mas para que possam servir o bem comum e as gerações futuras é necessário trabalhar com os lugares e não contra os lugares. Reciclar estruturas e não destruí-las. Acarinhar os testemunhos deixados pelos nossos antepassados.
 
O que é único e especial nestes espaços hospitalares é precisamente o se ter sabido adaptar para novas funções, sem destruir irreversivelmente, as cercas conventuais. Também é verdade que com o séc. XX, principalmente na segunda metade, se fizeram obras e construções em excesso, já sem grande respeito ou sensibilidade pelo património. Mas Lisboa tem agora a oportunidade de pensar bem, escolher bem, fazer bem - porque hoje a nossa grande vantagem é de sermos capazes de tomar decisões mais bem informadas. Ora é isso que no fundo falta nestas propostas: informação. Essa falha é devida em grande parte ao promotor destes projetos e menos aos arquitetos que afinal deram resposta ao programa da ESTAMO.
 
Concluimos pois que os presentes PIPs não reúnem condições para serem aprovados.
 
A LAJB solicita à CML uma promoção de facto do debate alargado e reflexão mais profunda sobre estes importantíssimos lugares históricos da nossa cidade. Porque o que vemos nestas quatro propostas é ainda demasiado pobre, banal e peca pela pouca ambição do bem comum. Lisboa merece muito mais e melhor.
 
Liga dos Amigos do Jardim Botânico
12 de Julho de 2013

Foto: Hospital de Santa Marta, fachada principal - antigo convento de Santa Marta, Armando Serôdio, 1968, Arquivo Municipal de Lisboa,  

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PARTICIPE NO PROJECTO: «LISBOA AMANHû

Se possível, peço que divulguem a nossa iniciativa pelos membros da vossa associação, para que eles conheçam o site e enviem as suas próprias propostas particulares. Podem também visitar a página do Facebook (www.facebook.com/LXAMANHA), onde podem acompanhar as novidades que pretendemos desenvolver. Com os melhores cumprimentos,

Luis N. Filipe

LISBOA AMANHÃ

A LAJB já contribuiu para este louvável projecto com duas propostas levadas ao Orçamento Participativo da CML: «Um Jardim no Largo Hintze Ribeiro», «Arborização da Rua Borges Carneiro» e «Arborização da Rua Nova de S. Mamede». Apresentem também as vossas propostas para a Lisboa de Amanhã através da plataforma www.lxamanha.pt


segunda-feira, 30 de julho de 2012

«Lisboa – única, genuína, nossa!»

Lisboa – única, genuína, nossa!
Por todo o lado, num teimoso absurdo, crescem novos empreendimentos, sempre “de luxo” com nomes impantes com Príncipes e Duques à mistura com Palaces, Places, Residences e Terraces.
A Baixa deserta, as grandes avenidas dia-a-dia destruídas; as lojas antigas dão lugar a assépticas cadeias, sítios de comer-a-correr; Lounges e Chill Outs, com ambientes importados que se dizem sofisticados.
Lisboa abafa, roubam-lhe o ar, roubam-lhe a luz, roubam-lhe o rio, roubam-lhe a memória e a vida. E agoniza perante uma modernidade bruta e parola que a ignora, que lhe é imposta.
É urgente travar a destruição desta cidade assombrosa e milenar.
É urgente protege-la e proteger quem aqui vive.
É urgente amá-la e oferece-la como ela é, única, genuína, nossa!

Ana Alves de Sousa
Nota: opinião chegada por email da parte de uma cidadã com olhar crítico sobre a situação actual da  nossa cidade - que bem se aplica ao nosso bairro aqui em redor do Jardim Botânico onde abundam cada vez mais os estrangeirismos. Novo riquismo? Complexo de inferioridade? Em Portugal uma "casa" é uma casa e não "home" ou "flat" (pior e mais perigoso ainda são os "luxury flats"!). Foto: Rua Rosa Araújo.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CRITICAL: LISBON. FALAR À CIDADE, FALAR COM A CIDADE (16 a 21 Julho)




Workshop coordenado por Lev Bratishenko, Frederico Duarte e Becky Quintal (inserido no programa Distância Crítica da Trienal de Arquitectura de Lisboa)

CRITICAL: Lisbon é um workshop de uma semana dedicado à expressão, discussão, escrita e publicação crítica sobre arquitetura. Concebido como um projeto editorial especulativo, este workshop confronta a noção de que o arquiteto e o público operam em universos ideologicamente díspares na sua procura e desejo comuns de melhorar a cidade.
 
Tomando a cidade de Lisboa como base de trabalho e inspiração, serão explorados os desafios e obstáculos que os críticos de arquitetura devem enfrentar, mas também as estratégias, táticas e ferramentas que utilizam para os ultrapassar.
 
No workshop serão analisados os muitos meios e mensagens disponíveis aos críticos de hoje: desde ensaios, vídeos, artigos de opinião, fotografias, entrevistas com arquitetos e outros agentes-chave da cidade até recensões descritivas de edifícios ou controvérsias atuais sobre espaços públicos. 
 
Este workshop destina-se a estudantes e jovens profissionais interessados em questões de design, arquitetura e assuntos urbanos. Os candidatos a participantes devem ter o desejo de exercitar e difundir as suas observações, análise e opinião junto de um determinado público, dos seus pares ao público em geral.
 
Aspetos práticos:
- O idioma de trabalho do workshop é o inglês. 
- Cada participante deve trazer o seu próprio caderno e material de escrita, computador portátil e máquina fotográfica ou câmara de vídeo digitais.
 
Horário do workshop: 09h30 - 18h00
Local do workshop: Sede da Trienal de Arquitectura de Lisboa, Palácio Sinel de Cordes, Campo de Santa Clara, 142-145, 1100-474 Lisboa


FOTO: demolição integral de imóvel na R. do Monte Olivete, em zona histórica consolidada.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Lawn need a trim? Start-up will rent you a sheep

Oberlin, OHIO, EUA

Back-to-nature firms take off amid shortage of white-collar jobs

In this verdant college town, most people keep their lawnmowers tuned up by oiling the motor and sharpening the blades. Eddie Miller keeps his in shape with salt licks and shearing scissors.

Mr. Miller, 23, is the founder of Heritage Lawn Mowing, a company that rents out sheep — yes, sheep — as a landscaping aid. For a small fee, Mr. Miller, whose official job title is ‘‘shepherd,’’ transports his ovine squad to the yards of area homeowners, where the sheep spend anywhere from three hours to several days grazing on grass, weeds and dandelions.

in The New York Times, 4 Novembro 2011, página 17

Foto: Eddie Miller takes Panda and Nerd to their next landscaping job. Agricultural enterprises like his Heritage Lawn Mowing are benefiting from interest in the sustainable businesses.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Exercício de Cidadania na Praça das Flores


Um grupo de cidadãos decidiram protestar de forma original contra a implantação de mais um lugar de estacionamento à custa do espaço público. Como o fizeram? Cobriram o futuro lugar de estacionamento com relva fresca na madrugada do Sábado passado!
desta forma apelam à sociedade para usar o espaço e manifestam-se contra os planos de o susbtituir para ocupação por mais um carro estacionado. Link para a página desta notável acção de cidadania: www.facebook.com/pracadaspessoas


"O espaço pedonal da Praça das Flores (em Lisboa) está prestes a perder 18m2, transformados num lugar de estacionamento. O que antes era espaço usufruido por todos passará a estar ocupado por um carro, que lá poderá estar estacionado durante algumas horas ou mesmo dias.


Retira-se espaço público de todos para benefício de muito poucos.

Antes do novo lugar de estacionamento ser aberto aos carros, alguns cidadãos cobriram-no simbolicamente com um manto de relva - para ser usufruido por todos os cidadãos.

Queremos com esta acção causar reacção entre os moradores, entre todos os que usufruem da praça, e entre os decisores locais.
Queremos tornar mais óbvio o enorme valor que a comunidade perde quando parte do espaço público pedonal é transformado em estacionamento.

Enquanto o lugar de estacionamento não é aberto aos carros, apelamos a todos: passem pela Praça das Flores e usufruam do espaço relvado enquanto ele ainda existe. 
Para beber um refresco, para um piquenique, para ler, para descansar.

Será a nossa forma de mostrar aos decisores que aquele espaço poderia ter um uso muito melhor que um carro estacionado."

sábado, 12 de maio de 2012

«...numa sociedade que se deixou arrastar por um mercantilismo cego»


"De facto, estamos perante a superação de um entendimento já ultrapassado, segundo o qual as políticas de proteção, conservação e defesa do património se contrapunham às modernas políticas públicas da cultura, para as quais a economia e a coesão social têm tudo a ver com as ações dos criadores. A cultura não é um campo excêntrico no âmbito das políticas sociais. Está cada vez mais no centro da inovação e da criatividade. A crise financeira, cujos efeitos duramente sentimos, deve-se à especulação, à ilusão, ao imediatismo e à desvalorização da criação e da cultura. Compreendendo-se que aquilo que mais vale é o que não tem preço, numa sociedade que se deixou arrastar por um mercantilismo cego, pelo fundamentalismo do preço e pela lógica de casino, temos de entender que, longe de ser um luxo, a cultura (vista num sentido amplo, ligada à educação e à ciência) está no coração das políticas públicas contra a crise."
Guilherme de Oliveira Martins no Público de 18 Abril 2010
Foto: pintura a fresco no Palácio Pombal em Lisboa

terça-feira, 8 de maio de 2012

As Árvores e os Livros: Mary Hewitt

Yes, in the poor man's garden grow

Far more than herbs and flowers -

Kind thoughts, contentment, peace of mind,

And joy for weary hours.


Mary Elizabeth Hewitt (1807-1884) poeta americana nascida em Malden, Massachusetts.

Foto: quintal cultivado na Colina do Castelo em Lisboa

domingo, 25 de setembro de 2011

Avenidas Novas: «A sistemática destruição das árvores dos quintais»

«Os logradouros interiores dos quarteirões de Lisboa constituíram pulmões verdes e áreas de inflitracção das águas, de grande importância na sustentabilidade ecológica e estabilidade da cidade. A sistemática destruição das árvores dos quintais constitui um grave erro urbanístico.»

Arq. Gonçalo Ribeiro Telles

in A Árvore em Portugal

Foto: Parece que estas sábias observações têm caído, na maior parte das vezes, em saco roto... Logradouro 100% impermeabilizado para a construção de caves de estacionamento na Av. Duque de Loulé, 86-88-90.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

«NOVAS BARRAGENS = CRIMES»

O JN trazia esta semana dois artigos que se interligam profundamente. Num, o Norte como região turística preferida dos portugueses, sobretudo pela natureza e paisagem. No outro, o retrato da futura barragem do Tua.

Questão: é possível destruir um rio como o Tua e manter-se a ficção de que o turismo é o maior activo do país? As barragens foram propagandeadas por Salazar como o milagre da energia barata e são hoje responsáveis por uma parte da produção de electricidade nacional, além de terem melhorado o controlo do caudal dos rios. Foi assim por todo o Mundo. Mas já se evoluiu muito desde então e hoje percebe-se melhor que elas têm um custo implícito, porque os ecossistemas vão sendo profundamente alterados e a nossa saúde paga todos os dias a factura... Infelizmente, para a maioria das pessoas, isto é conversa. O que importa é se a conta da luz é mais barata.

Começo então por aqui: o plano de barragens posto em marcha pelo Governo Sócrates inclui uma engenharia financeira tipo "scut" cujo custo só vamos sentir daqui a uns anos de forma brutal - e aí já será tarde. Uma plataforma de organizações ambientais entregou esta semana à troika um documento que explica onde nos leva o plano da outra "troika" (Sócrates-Manuel Pinho-António Mexia). As 12 obras previstas que incluem novas barragens e reforço de outras já existentes produzem apenas o equivalente a três por cento de energia eléctrica do país, mas vão custar ao Orçamento do Estado e aos consumidores 16 mil milhões de euros... O documento avisa que a conta da electricidade vai, a prazo, incluir um agravamento de 10% para suportar mais este negócio falsamente "verde". A EDP, a Iberdrola, etc., receberão um subsídio equivalente a 30% da capacidade de produção, haja ou não água para produzir. Mesmo paradas, recebem. A troika importa-se com isto? Os especialistas das organizações ambientais dizem, desde o princípio, que as novas barragens poderiam ser evitadas se houvesse aumento de capacidade das barragens existentes. Era mais barato e a natureza agradecia.

Infelizmente a EDP apostou milhões para conseguir novas barragens, e isso incluiu antecipação de pagamentos de licenças que ajudaram o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos a cobrir uma parte do défice de 2009, além da mais demagógica e milionária campanha publicitária da década, em que se fazia sonhar com barragens como se fossem os melhores locais do Mundo para celebrar a natureza... Estes monstros de betão vão agora destruir dois rios da região do Douro, desnecessariamente.

O Sabor, por exemplo, é uma jóia de natureza ainda selvagem. À medida que o turismo ambiental cresce globalmente, mais Portugal teria a ganhar com um Parque Natural do Douro Internacional ainda inóspito, genuíno. Já não será assim. A barragem em construção inclui uma albufeira de 40 quilómetros onde se manipula o rio de trás para a frente, com desníveis súbitos, acabando com a vida fluvial endógena e o habitat das espécies em redor.

Não menos grave é a destruição do rio Tua e da centenária linha do comboio. Uma vez mais o argumento é "progresso" - os autarcas e as populações acreditam que os trabalhadores da construção civil, que por ali vão andar por uns anos a comer e a dormir nas pensões locais, garantem a reanimação da economia... Infelizmente, não vêem o fim definitivo daquela paisagem e da mais bela história ferroviária de Portugal. Uma linha erigida a sangue, suor e lágrimas. Única. E que deveria ali ficar, mesmo que não fosse usada ou rentável, até ao dia em fosse entendida como um extraordinário monumento da engenharia humana e massivamente visitada enquanto tal. Ao deixarmos cometer mais estes crimes, em troca de um mau negócio energético, não percebemos mesmo qual o nosso papel no Mundo. Esquecemos que a Natureza nos cobra uma factura muito pesada quando destruímos a fauna e a flora. Estamos a comprometer a qualidade da água e das colheitas de que precisamos para viver, com consequências para a nossa saúde e a das gerações vindouras. Se ainda não sabemos isto, sabemos zero. E ainda por cima vamos pagar milhões. É triste.

in JN 8 Setembro 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Hortas Urbanas: «Hortas mais caras e com menos área na Quinta da Granja»

«Câmara de Lisboa espera concluir intervenção nos terrenos em Outubro. Gabinete do vereador José Sá Fernandes prepara proposta para baixar preços da renda definidos na nova tabela municipal

Nas mãos calejadas, João dos Santos leva os pimentos - viçosos, verdes e vermelhos - acabados de colher. Às 11 da manhã já este agricultor de 73 anos cumpriu duas horas de trabalho, debaixo de sol, na horta da Quinta da Granja de Baixo, em Benfica, Lisboa. Num terreno com cerca de 80 metros quadrados cultiva uma lista imensa de hortaliças e tem árvores de fruto carregadas. Está ali há quase 40 anos e até hoje nunca pagou nada por isso. A partir de Outubro, porém, o septuagenário e os vizinhos vão ter de pagar uma renda anual por cada parcela de terra, cujo valor ainda não está definido. Na horta já se ouvem as críticas e teme-se pelo futuro. A Câmara de Lisboa está desde Maio a remodelar as hortas da Quinta da Granja de Baixo e a refazer a divisão das parcelas. No final serão 38, cada uma com 175 metros quadrados e com acesso a pontos de água. Quem já ocupa os terrenos tem lugar garantido e a autarquia pretende abrir concursos para quem quiser cultivar os espaços livres. Mas o que mais preocupa os agricultores são os preços que poderão ter de pagar pelos terrenos, cuja ocupação era até agora gratuita. Em princípio, os hortelões estarão sujeitos à nova Tabela de Preços e Outras Receitas Municipais, em vigor desde Julho, que estabelece o pagamento de 1,50 euros por metro quadrado em terrenos com menos de 200 metros quadrados. Se assim for, João dos Santos terá de desembolsar uma renda anual de mais de 100 euros. Mas no gabinete do vereador dos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, está "em estudo" a possibilidade de alterar os preços. Segundo a adjunta do vereador, Rita Folgosa, aquelas hortas vão ser classificadas como sociais, ou seja, reservadas a pessoas carenciadas que se dedicam ao cultivo para subsistência, o que justifica a aplicação de preços mais baixos. No entanto, a proposta tem antes de ser aprovada em reunião de câmara. Ao "senhor João" - é assim que é cumprimentado pelos vizinhos - uma técnica municipal disse já que a renda ia ser de 50 euros por ano, mas não deu certezas. "Acho muito caro, são dez contos. Ainda por cima, se não fôssemos nós, os terrenos estavam ao abandono", critica.

Um abrigo para quatro

Uma grande parte das pessoas que cultivam a Quinta da Granja de Baixo está reformada, em situação de pré-reforma ou desempregada. "Ao todo somos uns 12 e pelo menos seis trabalharam na polícia", conta João dos Santos, que é também reformado da polícia municipal. É natural de Almeida, do distrito da Guarda. Foi daí que transportou o "bichinho" da horta para Lisboa, onde se casou. Como nas aldeias, na quinta quase todos se conhecem. João dos Santos sabe de cor o nome dos vizinhos, sobretudo dos que estão ali desde o 25 de Abril de 1974, a convite do antigo proprietário da quinta, da família Canas da Silva, que mantém a Quinta da Granja de Cima. "O antigo dono é que pediu para ocuparmos isto, para não se encher de barracas", afirma. Em vez de barracas, o terreno com mais de um hectare foi-se enchendo de couves, batatas, abóboras, cebolas, tomates, feijões, ervas aromáticas e girassóis altos que se destacam no meio do verde. Aqui e ali, erguem-se pequenos barracões onde os hortelões guardam ferramentas e algumas colheitas. Há até uma casa de banho improvisada. O barracão que João dos Santos construiu é que já não existe. "Deitaram tudo abaixo, até as minhas figueiras, para fazer um jardim", lamenta. Mas as cedências que teve de fazer à câmara por causa das obras não ficam por aqui. Há cerca de dois meses, as retroescavadoras avançaram sobre um bocado sua parcela. "Tive de arrancar as batatas todas para poderem passar", recorda com mágoa. As máquinas abriram caminhos, remexeram nas terras da colina que fica por detrás e substituíram o muro, que tinha sido arranjado no ano passado, por uma parede de pedras envoltas em arame. A autarquia pretende construir pequenos abrigos de madeira, destinando um para cada quatro agricultores. No caminho junto à parede de pedras já foi instalado um abrigo, que não tem mais do que seis metros quadrados. "Estamos todos contra, porque não chega para quatro pessoas. Eu tenho muitas batatas e abóboras. E agora, levo tudo para casa?", questiona João dos Santos. "Isto é para quatro?", diz João Conceição, outro agricultor, de 58 anos, reformado da polícia. Aponta para o abrigo e ri-se, com ironia. João Conceição não estava em Lisboa quando a câmara municipal começou as obras. "Quando cá cheguei, o senhor João é que me disse que eles já tinham andado aí e que deitaram tudo abaixo. Disseram que vinham depois falar comigo, mas ainda não vi ninguém", reclama. O terreno que João Conceição cultivava há mais de 15 anos está lavrado, as hortaliças desapareceram e ninguém o avisou. Espera agora pela reunião marcada para Setembro, entre os hortelões e os responsáveis da câmara, para saber o seu futuro. Enérgico, João Conceição gesticula e continua com as críticas. "Então e se vem para aqui uma pessoa de que a gente não gosta, como é que se faz? Olhe que às vezes há aqui desavenças", avisa, dando como exemplo algumas lutas pela água do poço e da mina que abastece os terrenos. "Isto tem água que chegue, mas no Verão alguns abusam." Na semana passada, seis mangueiras ligavam os terrenos à mina, que estava praticamente sem água. "Antes, só cá estavam três mangueiras", nota.

Ao lado do Colombo

As ferramentas de João Conceição ainda estão guardadas na casa de tijolo construída ao pé do poço. "Fui eu que lhe pus o telhado, quando para cá vim", sublinha. Não quer largar a quinta por nada e nem se importa de pagar. Até prefere que a câmara ponha ordem na ocupação. Mas vaticina: "Quando for para pagar, alguns vão sair, isso é certinho." Joaquim Nabais, de 61 anos, é outro dos agricultores resistentes. Cultivava há dez anos uma parcela da quinta que teve de abandonar em Maio, a mando da câmara. "Enviaram-me uma carta para casa a dizer que tinha de sair." Acatou a ordem e foi-se instalar num bocado de terra "emprestado pelo senhor Carvalho". É carpinteiro, mas está desempregado e as hortaliças que cultiva fazem a diferença na factura mensal da alimentação. "Quando estiver tudo pronto, volto para o meu lugar", afirma. Por agora, ainda andam por lá as máquinas a remexer a terra. Além de requalificar as hortas, a autarquia está a acabar o parque urbano da Quinta da Granja, que fica paredes-meias. Tem já um quiosque com esplanada, é atravessado por uma ciclovia e por um passeio pedonal, pontuado por bancos de madeira. Quem aproveita o dia de Verão para passear no parque com vista para as hortaliças até esquece que do outro lado das pequenas colinas que ladeiam o jardim está o centro comercial Colombo. Na terra de João dos Santos, ninguém acredita. "Como é que tens uma horta no meio da cidade?", perguntam-lhe. "Lisboa não é só betão", responde.» In Público (29/8/2011)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

«CML aprova Plano de Pormenor do Parque Mayer»

«A câmara lisboeta aprovou hoje, com as abstenções do PSD e CDS-PP, o Plano de Pormenor do Parque Mayer, que após passar por discussão pública respondeu, segundo a maioria PS e o PCP, a dúvidas sobre impactos no Jardim Botânico. Depois de ter estado em discussão pública, este plano voltou hoje à câmara acompanhado por um estudo hidrogeológico encomendado pela Universidade de Lisboa e pela autarquia para toda a sua área que conclui que as construções previstas para a zona não vão afectar o equilíbrio ecológico do Jardim Botânico. O estudo permite ainda a construção de um parque de estacionamento para usufruto daquela universidade junto à Rua da Escola Politécnica. Além disso, o vice-presidente da câmara, Manuel Salgado, indicou que 30 por cento do acréscimo de imposto municipal sobre imóveis (IMI) que resulte da reavaliação patrimonial dos prédios na zona envolvente será canalizado para a manutenção do Jardim Botânico.

O vereador do CDS-PP, António Carlos Monteiro, manifestou "grandes dúvidas" quanto "ao aumento de construção nesta área" e disse temer que "os lugares de estacionamento não sejam suficientes", sob o risco de se agravar a "situação já de si de grande deficiência de estacionamento", uma reserva que apresenta desde o início da discussão. Já o líder de bancada do PSD, Pedro Santana Lopes, afirmou que "este não é o sonho" que tem para aquela zona. "Quanto à versão final temos uma apreciação positiva, pensamos que os estudos que foram feitos esclarecem algumas das dúvidas que podiam surgir quanto à estabilidade do aterro [junto do Jardim Botânico]", disse, por sua vez, o comunista Rúben de Carvalho.

Também a vereadora do movimento Cidadãos por Lisboa, eleita pelo PS, elogiou o plano. O vereador independente eleito pelo PS José Sá Fernandes não votou a proposta, porque tem pendente uma acção judicial contra a permuta de terrenos entre o Parque Mayer e a Feira Popular.»

In Diário de Notícias (21/7/2011) por Lusa

quarta-feira, 20 de julho de 2011

«Intervenções no Parque Mayer não põem em risco o Jardim Botânico»

«Estudo conclui que as construções previstas para aquela zona não vão afectar o escoamento do jardim nem a permeabilidade dos logradouros

O estudo hidrogeológico encomendado pela Universidade de Lisboa e pela câmara para a área afecta ao Plano de Pormenor do Parque Mayer conclui que as intervenções previstas para a zona não vão ter impactos negativos no equilíbrio ecológico do Jardim Botânico. De acordo com o estudo, "as construções previstas para a zona do Parque Mayer, tal como preconizado no respectivo plano de pormenor, não afectarão com significância o escoamento natural definido para o Jardim Botânico". Isto porque, lê-se no documento, no jardim "não foi reconhecido um aquífero na verdadeira acepção do termo hidrogeológico". "Tivemos o máximo dos cuidados a fazer o plano e este estudo só veio confirmar isso", disse ontem o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, à margem da reunião da assembleia municipal. A versão final do plano vai ser hoje discutida em reunião de câmara.

"Dormir descansados"

"Os amigos do Jardim Botânico e o Fórum Cidadania Lisboa podem dormir descansados", afirmou, referindo-se aos movimentos que criticaram as intervenções propostas no plano de pormenor. Estes movimentos, que em 2010 lançaram uma petição a exigir a revisão do plano, sugeriam a criação de um mecanismo de perequação, através do qual todos os proprietários dentro da área do plano deveriam partilhar os custos e os benefícios pela requalificação do jardim. A sugestão não foi, porém, acolhida. "O mecanismo da perequação não faz sentido aqui", afirmou o vereador. Manuel Salgado garantiu que 30 por cento do acréscimo de imposto municipal sobre imóveis que resulte da reavaliação patrimonial dos prédios na zona envolvente vai reverter para a manutenção do jardim. O PÚBLICO tentou contactar a Liga dos Amigos do Jardim Botânico e o Fórum Cidadania Lisboa sem sucesso. Sobre a permeabilidade dos logradouros, outra das questões apontadas pelos contestatários, um documento da autarquia esclarece que numa das áreas de intervenção a área de logradouro impermeável não ultrapassará os 20 por cento e nas restantes unidades será obrigatório prever poços de infiltração. O estudo hidrogeológico refere também que a área fortemente impermeabilizada "é diminuta ou quase nula". Quanto ao muro de suporte do Jardim Botânico, outro estudo conclui que o muro está estável, mas recomenda que seja monitorizado de seis em seis meses e durante um ano. » In Público (20/7/2011) Marisa Soares