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sábado, 23 de abril de 2016

As Árvores e os Livros: Verlaine

















Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches.
Et puis voici mon coeur qui ne bat que pour vous.

Verlaine

Foto: Rosa multiflora na Classe do Jardim Botânico

sábado, 7 de dezembro de 2013

As Árvores e os Livros: Manuel Gusmão

uma árvore é um anjo

um anjo lenhoso, altamente inflamável,
de alto a baixo prometido
a um incêndio que a si mesmo se combatesse

uma árvore é um anjo na terra
um anjo que está sempre a enraizar-se
e a erguer-se a poder de braços

Uma árvore conhece pouco
das nossas maneiras de lutar
e morrer; por isso:

uma árvore é e não é um anjo

Manuel Gusmão

Pequeno Tratado das Figuras

Foto: copa outonal de Ginkgo biloba no Arboreto

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

As Árvores e os Livros: Carlos de Oliveira

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.

Carlos de Oliveira
Trabalho Poético

Foto: ramagens de Araucaria e Pinheiro no Arboreto

terça-feira, 23 de julho de 2013

As Árvores e os Livros: «PALMEIRAS»

As árvores a copa orvalhada de sol
Rectas. Dou ao meu sol a seiva evaporada.
O sol repousa sobre o mármore das folhas
Como a água do mar no fundo adormecido.

O céu é de um só bloco a terra é vertical
E as sombras das árvores continuam as árvores.

Paul Éluard França (1895-1952)
in Rosa do Mundo

(tradução de Manuel Bandeira)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

As Árvores e a Cidade: GINGKO BILOBA

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Pra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

J. H. Goethe
[versão de Paulo Quintela]

Fotografia © Maria João Torgal, Ginkgo biloba, Lisboa, outono 2012

Poema escrito por Goethe em 1815 sobre a árvore Gingko biloba

domingo, 10 de junho de 2012

As Árvores e os Livros: Pedro Tamen

Árvore

Cresce e vem do fundo da terra

ou do fundo do tempo.

Sobe para um céu

que afinal não conhecemos.

No intervalo há vida

- e também ela cresce:

nela se encerra

o que somos e temos;

e se desvela o véu.


Pedro Tamen, Março de 2010

Foto: bosque de carvalhos na cerca do Mosteiro de Tibães, Braga

terça-feira, 8 de maio de 2012

As Árvores e os Livros: Mary Hewitt

Yes, in the poor man's garden grow

Far more than herbs and flowers -

Kind thoughts, contentment, peace of mind,

And joy for weary hours.


Mary Elizabeth Hewitt (1807-1884) poeta americana nascida em Malden, Massachusetts.

Foto: quintal cultivado na Colina do Castelo em Lisboa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

As Árvores e os Livros: António Ramos Rosa

O Jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,

calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. ...

Sequências de convergências e divergências,

ordem e dispersões, transparência de estruturas,

pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.


Geometria que respira errante e ritmada,

varandas verdes, direcções de primavera,

ramos em que se regressa ao espaço azul,

curvas vagarosas, pulsações de uma ordem

composta pelo vento em sinuosas palmas.


Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.

Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.

Sou uma pequena folha na felicidade do ar.

Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.

É aqui, é aqui que se renova a luz.


António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

(Nascido em Faro, a 17 de Outubro de 1924)

Foto: Ficus superba japonica

sábado, 10 de setembro de 2011

As Árvores e os Livros: Hermínio Monteiro

Manuel Hermínio Monteiro - Editor e Poeta ( 1952-2001 )

"Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do Homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre".

in antologia Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro

Foto: Kandalama, Sri Lanka

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As Árvores e os Livros: Mário Cesariny

Nós somos como a árvore mais jovem
Que todo o ano precisa de ser cuidada.

Mário Cesariny

(Lisboa, 9 de Agosto de 1923 — Lisboa, 26 de Novembro de 2006)

Foto: Figueira num quintal da Mouraria, Lisboa

domingo, 5 de junho de 2011

As Árvores e os Livros: W. B. Yeats

Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun

Now I may wither into the truth.

W. B. Yeats


Foto: Magnolia grandiflora, Classe, Jardim Botânico

segunda-feira, 21 de março de 2011

As Árvores e os Livros: Ruy Belo

COMPREENSÃO DA ÁRVORE

A tua voz edifica-me sílaba a sílaba ...

e é árvore desde as raízes aos ramos

Cantas em mim a primavera breve tempo

e depois os pássaros irão

povoar de ti novas solidões

E eu sentirei na fronte permanentemente

o sudário levemente branco do teu grande silêncio

ó canção ó país ó cidade sonhada

dominicalmente aberta ao mar que por fim pousas

na fímbria desta tua superfície.


Ruy Belo

Foto: Ficus macrophylla, na Classe

domingo, 20 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.

Nota: Hoje, no Dia Mundial da Poesia, oferecemos flores de gengibre do Jardim Botânico de Singapura e um poema de Herberto Helder.

terça-feira, 1 de março de 2011

As Árvores e os Livros: Camilo Pessanha

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS...

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha

(O poeta morreu em Macau a 1 de Março de 1926)

Foto: Rosa multiflora em floração na Classe do Jardim Botânico

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

As Árvores e os Livros: Andrew Marvell

I have a garden of my own,
but so with roses overgrown,
and lilies, that you would it guess
to be a little wilderness.

Andrew Marvell

Andrew Marvell (1621–1678) foi um poeta inglês autor de vários livros de poesia donde se destacam To His Coy Mistress, The Garden, An Horatian Ode e Upon Appleton House. Foi colega e amigo de John Milton.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

As Árvores e os Livros: José Gomes Ferreira

Nesta árvore
onde até os pássaros se enforcam nos ninhos
há muito que mora uma ninfa
uma ninfa de carne incerta
fugida da borrasca
dos caminhos.

Bato-lhe de manso na casca...

Sou eu, ninfa. Abre! Estamos os dois sózinhos
nesta rua deserta.

Sai cá para fora
e beija-me na boca.

Prova-me que a vida é louca.

José Gomes Ferreira


Foto: Lodão na Avenida António Augusto de Aguiar

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Digo «Lisboa»

Digo
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade-
Digo para ver.

«Lisboa», de Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 31 de maio de 2010

As Árvores e os Livros: Joseph Von Eichendorff

Como se o céu ficasse
beijando a terra ainda
que em flor-luz palpitasse
sonhando a sua vinda.

A aragem pelos prados,
leve ondular da seara,
bosques rumorejados
e a noite de astros clara.

E a alma a desdobrar
ao largo cada asa
nos campos devagar
como a voar pra casa.


Joseph Von Eichendorff

Foto: Viburnum rhytidophyllum em floração na Classe

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

AS ÁRVORES e os LIVROS: o «Chap»




It is in the nature of the trees
to grow up into a forest
And to be twisted, or straight.
As to the inhabitants of a kingdom
which is protected by a good sovereign,
some of them are just and honest
and some of them are stupid and vile.

All kinds of animals,
ferocious or cruel,
One could force and command them
But for ferocious, stupid and abusive people
The sage tells us to turn away
And to distance ourselves from them.


(Kaun Chau st. 24-25)

Nota: Texto extraído do «Chap», textos budistas do Cambodja

Fotos: Flores de lótus no Museu Nacional de Phnom Penh

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

AS ÁRVORES e os LIVROS: Joachim Du Bellay

Quem viu alguma vez um grande carvalho seco,
Que como adorno algum troféu comporta,
Erguer ainda ao céu a sua velha cabeça morta,
Cujo pé não está firmemente em terra fixado,
Mas que, sobre o campo mais do que meio inclinado,
Mostra os seus braços todos nus e a sua raíz torta,
E, sem folhas que dê sombra, o seu peso suporta
Sobre um tronco nodoso em cem sítios podado;
E, se bem que ao primeiro vento ele deva a sua ruína,
E muito jovem, à sua volta tivesse firme a raiz,
Pelo popular devoto ser o único venerado:
Quem tal carvalho pôde ver, que ele imagine ainda
Como entre os citados, que mais florescem agora,
Este velho símbolo empoeirado é o mais reverenciado.

Joachim Du Bellay, Les Antiquités de Rome

soneto XXVIII

Foto: detalhe de um Sobreiro na Tapada de Mafra