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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Jardim do Caracol da Penha vence Orçamento Participativo, com votação recorde


São 17 os projectos vencedores da nona edição do Orçamento Participativo de Lisboa. Fernando Medina diz que a lista de eleitos "é um sinal muito forte, claro, directo, sobre aquilo que devem ser as prioridades do executivo".
 
O Jardim do Caracol da Penha foi o grande vencedor do Orçamento Participativo de Lisboa de 2016/2017. O projecto, que prevê a abertura de um novo jardim público nas freguesias de Arroios e Penha de França, conquistou uma votação recorde de mais de nove mil votos.
 
Dentro dos projectos estruturantes, o Jardim do Caracol da Penha foi o projecto que mais votos conquistou: 9477. Até aqui o projecto mais votado da história do Orçamento Participativo de Lisboa tinha sido o da requalificação do Jardim Botânico de Lisboa, que arrecadou 7553 votos em 2013. [...]
 
Também o presidente da Câmara de Lisboa considerou que a lista de vencedores "diz muito sobre o que são os anseios das forças vivas da cidade". "Todos os dias ouvimos o debate sobre o automóvel, o estacionamento, a obra", lembrou Fernando Medina, notando que os projectos que mais votos conquistaram não têm a ver com essa realidade, mas sim com o desejo de "mais espaços verdes, mais espaço público, mais segurança para os peões, para as pessoas de idade, mais segurança e possibilidade de as crianças poderem aceder ao espaço público e aos jardins, mais instalações desportivas, mais wi-fi pela cidade, mais valorização da história e do património". "São estas as grandes áreas de participação", frisou o autarca. E isso, acrescentou, "é um sinal muito forte, claro, directo, sobre aquilo que devem ser as prioridades do executivo".
 
in Público, 28 de Novembro de 2016
 
Nota: a Liga dos Amigos do Jardim Botânico de Lisboa foi um dos apoiantes oficiais deste projecto - a todos os nossos associados que votaram, e angariaram votos, MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Telões do Museu da Ciência estão a ser retirados


















Estruturas tinham sido montadas em 2012 apesar de um parecer desfavorável e vinculativo. Nova solução contempla oito telas tipo pendão.

As duas telas de quase 200 m2 cada uma que a Universidade de Lisboa instalou ilegalmente, em 2012, na fachada do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, na Rua da Escola Politécnica, estão a ser retiradas por ordem da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC).  
Simultaneamente serão removidas as estruturas metálicas de suporte das telas usadas para divulgação das actividades do museu, bem como do Jardim Botânico, e será instalada uma nova solução com o mesmo objectivo.   
Esta solução, composta por oito telas verticais e perpendiculares à fachada, foi aprovada pela DGPC, que considerou menos grave o seu impacto visual e patrimonial para o imóvel da antiga Faculdade de Ciências, classificado como monumento de interesse público.   
A polémica relativa à chamada “instalação informativa” do museu foi desencadeada logo em 2012 devido não só às dimensões das telas (17,90 por 10,40 metros), mas também ao facto de a pesada estrutura de suporte estar cravada nas paredes e ser saliente em relação ao plano da fachada.  
Numa primeira fase, em 2012, o Igespar — organismo cujas competências passaram depois para a DGPC e tinha antes emitido parecer desfavorável ao projecto da universidade — considerou a instalação das telas como provisória e promoveu, sem sucesso, várias diligências com vista à sua substituição. Dois anos depois, em Abril de 2014, a DGPC  determinou, sem indicação de prazo limite, a retirada dos telões e a “revisão da ‘instalação informativa’ por forma a reduzir o seu impacto visual”.  
Mais tarde, o museu apresentou um novo projecto à DGPC, o qual foi parcialmente aprovado em Abril deste ano. Nessa altura os responsáveis pelo património deram um prazo de dois meses para que os telões ilegais fossem removidos. O projecto aprovado contempla oito telas de face dupla, subdivididas em dois grupos de quatro, cada um dos quais fixado perpendicularmente à fachada, de um e do outro lado da escadaria principal.  Para lá destas telas de um metro de largura e perto de seis metros de altura, o projecto apresentado previa também a afixação de elementos informativos nas colunas e pilastras da frente do monumento. De acordo com a DGPC, esta última proposta não foi aprovada, considerando-se que “dada a profusão de telões previstos para o local, deverá haver o máximo cuidado no preenchimento de novas áreas da fachada principal do museu com qualquer outra informação”.  
O director do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, José Sousa Dias, disse ao PÚBLICO que a remoção das telas e da estrutura só agora foi concretizada por duas razões: a instituição não tinha orçamento disponível para o fazer e aguardava a aprovação da solução entretanto proposta. A possibilidade de retirar as telas deixando a estrutura metálica foi afastada por se considerar que isso seria pior no aspecto visual, pelo que foi decidido remover a totalidade da instalação ao mesmo tempo que serão montados os suportes das novas oito telas. Em princípio, acrescentou, as novas telas deverão estar no seu lugar definitivo no fim da próxima semana. in Jornal PÚBLICO, 7 Outubro de 2015

Fotos: Aspecto da complexa estrutura metálica de suporte e um dos telões agora retirados e que continha uma fotografia do Jardim Botânico.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

«Jardim Botânico de Lisboa com anfiteatro e espaços reabilitados em 2016»
















O Jardim Botânico da Faculdade de Ciências, em Lisboa, vai ganhar um pequeno anfiteatro e ter espaços renovados no âmbito do projecto de reabilitação, cujas obras deverão iniciar-se no final deste ano e durar entre seis e nove meses. 
O jardim, classificado como monumento nacional, encontra-se degradado devido à insuficiente manutenção originada pela “temporária falta de pessoal”, explicou à agência Lusa José Pedro Dias, director do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) da Universidade de Lisboa, que gere o espaço.  Por isso, vai ser agora reabilitado, no seguimento de uma candidatura vencedora ao Orçamento Participativo da Câmara de Lisboa, em 2013, que garantiu um financiamento de 500 mil euros.  Apesar ter passado já algum tempo, “as coisas nunca estiveram paradas”, assegurou José Pedro Dias, indicando que desde essa altura o museu está em contacto com o município para definir as intervenções.  As obras incidem só sobre a zona do arboreto, que ocupa três dos quatro hectares do jardim com árvores de maior dimensão, e assentam na “recuperação das infra-estruturas” como caminhos, sistema de rega e rede de escoamento das águas pluviais e ainda na instalação de electricidade e internet, apontou o responsável.  “Vai também ser recuperado o lago de baixo, que está, neste momento, seco porque está fracturado”, referiu.  
De acordo com José Pedro Dias, “a única coisa nova que vai surgir no jardim” é um pequeno anfiteatro, na parte central do arboreto, que será usado para espectáculos.  Acresce que, além da entrada pela Rua da Escola Politécnica, onde vai ser recuperada a zona da esplanada, o projecto prevê a “semiabertura” da ligação à Praça da Alegria, por onde os visitantes apenas poderão sair.  
O director admitiu temer que o jardim não esteja pronto no prazo previsto e tenha de encerrar no verão do próximo ano, quando há mais visitantes no jardim e, consequentemente, mais receita (ascendendo aos 100 mil euros).  
Quando as obras acabarem, o museu vai captar financiamento para a renovação da sinalética das plantas, comprometendo-se ainda a criar duas zonas de relvado.  Paralelamente, vai ser recuperado o observatório astronómico – situado junto à zona do jardim que era usada para o ensino da botânica, denominada classe –, uma obra de 200 mil euros financiados pela Universidade de Lisboa, que deve começar entretanto, segundo José Pedro Dias.  
O responsável espera que as obras renovem o Jardim Botânico, até porque coincidem com a chegada de três jardineiros, até ao final deste ano, para auxiliar o único existente.  Sem data prevista nem financiamento garantido está a recuperação dos caminhos, dos túneis subterrâneos e dos edifícios na zona da classe, enquadradas na segunda fase de reabilitação.  José Pedro Dias exemplificou, como possível forma de financiamento, a concessão dos espaços ali existentes para loja e cafetaria.  
O vereador da Estrutura Verde da Câmara de Lisboa, José Sá Fernandes, congratulou-se com a iniciativa: “É mais um jardim de Lisboa arranjado e é isso que interessa à cidade”.  O autarca afirmou à Lusa que este é o “melhor projecto possível para a primeira fase”, deixando em aberto a hipótese de a autarquia financiar a segunda fase da reabilitação.  Porém, salientou que “o Estado também tem aqui obrigações”.  A apresentação pública do projecto de reabilitação do Jardim Botânico realiza-se na quinta-feira, às 19h00, no palmário do jardim. in Público, 21 Julho 2015

Fotos: O Lago de Baixo no Arboreto conforme ficou poucos meses após as obras de 2012 e um exemplo das muitas placas degradadas que identificavam as plantas da colecção viva do Jardim Botânico.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

«Lisboa planta 100 árvores, uma por cada milhar de portugueses na Grande Guerra»
















Iniciativa lançada pela Associação Lisboa Verde prolonga-se até 2018, marcando os anos do centenário do conflito.  Em vez de mais placas evocativas ou monumentos em pedra, três associações juntaram-se para fazer uma homenagem diferente aos soldados enviados para a I Guerra Mundial. Desde o final do ano passado e até 2018, durante os anos do centenário da Grande Guerra, serão plantadas em Lisboa 100 árvores, evocando os mais de 100 mil portugueses envolvidos no conflito.  
“Cem Anos, Cem Árvores” é o nome do projecto organizado pela Associação Lisboa Verde (ALV), com o apoio da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas e da Liga dos Amigos do Jardim Botânico de Lisboa. O objectivo é recordar os cidadãos anónimos, soldados e enfermeiras que arriscaram a vida na I Guerra Mundial, utilizando as árvores como “símbolos de vida e renovação”, explica João Pinto Soares, presidente da Associação Lisboa Verde.  
A primeira árvore, uma oliveira, foi plantada a 11 de Novembro do ano passado na Embaixada de França, um dos países que foi palco do conflito no qual morreram cerca de dez milhões de pessoas, entre Julho de 1914 e Novembro de 1918. A 16 de Dezembro foi plantado um loureiro no Jardim do Instituto Goethe, pelo embaixador da Alemanha, Ulrich Brandenburg.  
Nesta sexta-feira será plantada a terceira árvore, na residência da embaixadora britânica, Kirsty Hayes. “Gostávamos que tivesse sido a 9 de Abril, para assinalar o aniversário da Batalha de La Lys [na Flandres, Bélgica], mas não foi possível”, afirma Pinto Soares. Porém ainda há tempo para cumprir a data, uma vez que o centenário desta batalha, da qual resultaram cerca de 600 soldados portugueses mortos e mais de 6000 prisioneiros, comemora-se a 9 de Abril de 2018.  
Segundo Pinto Soares, o objectivo é plantar árvores em espaços privados, como os cedidos pelas embaixadas, e públicos, como cemitérios, jardins ou ruas cuja toponímia esteja associada ao conflito, sempre que possível em datas simbólicas. Por exemplo, a 9 de Março de 2016 será plantada uma árvore para assinalar o centenário da entrada de Portugal na guerra.  
“Através da plantação de árvores no espaço público cumprimos a nossa missão cívica da homenagem de forma simbólica mas actual porque contribui para a qualidade de vida de todos os habitantes e visitantes de Lisboa”, lê-se no site do projecto. Para já as árvores (como oliveiras, zambujeiros, loureiros, freixos e ciprestes) são oferecidas pelas embaixadas mas Pinto Soares explica que qualquer pessoa poderá, numa segunda fase, oferecer e até plantar um exemplar.  
A iniciativa tem o apoio de entidades como a Liga dos Combatentes, as juntas de freguesia e a Câmara de Lisboa, entre outros organismos. Tem também o Alto Patrocínio da Presidência da República e inclui na Comissão de Honra nomes como o do general Ramalho Eanes e do antigo Presidente da República Jorge Sampaio. A presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, apoia o projecto: no próximo dia 21 será plantada uma árvore no Jardim Fernando Pessa, ao lado do edifício da Assembleia. 
Marisa Soares, in PÚBLICO, 17/04/2015

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

«O BOTÂNICO DE LISBOA»

Celebram-se hoje os 135 anos do Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, mais conhecido por Jardim Botânico de Lisboa. Nas palavras de Robert Chodat, botânico suíço da Universidade de Genebra, "este jardim é, sem contestação, uma das maravilhas do Sul da Europa", "graças a um clima em que a flora tropical prospera tanto como a da zona temperada," como descreve Thomas Mann, em As Confissões de Félix Krull. Este ano, as comemorações são duplamente celebradas, uma vez que o projecto de renovação do Jardim Botânico foi o grande vencedor do Orçamento Participativo de Lisboa (OPLx13).

Não deixa de ser curiosa a data deste aniversário, 11 de Novembro, oficialmente instituída apenas há dez anos. Dos registos históricos sobre os primeiros passos para a implantação do Jardim Botânico surge a contratação, a partir de 1 de Novembro de 1873, do primeiro jardineiro, Edmund Goeze. Ao fim de cinco anos atribulados, entre subfinanciamento e desastres naturais, as obras foram dadas por terminadas em 1878. A selecção da data teve em conta o marco que representou a contratação do primeiro jardineiro e o período de Novembro frequentemente favorecido pelos dias de Verão de S. Martinho, potenciando a atracção do público em período outonal. A generosidade e humildade que S. Martinho representa do ponto de vista litúrgico, aliada à exuberância e festa pagãs que esta época de
fins de colheita arrasta, serviram ainda como metáforas criativas. Convida-se o público a deixar-se arrastar pela simplicidade e beleza do espaço, usufruir da luz reflectida entre as árvores, ainda mais mágica neste período do ano, ouvir os sons da natureza, inaudíveis no rebuliço da cidade ao lado e vivenciar um jardim que transmite conhecimento científico, cultura e sensibilidade. Por isso, nesta data oferecem-se sempre programas variados que misturam o lúdico à ciência. Sendo um jardim da universidade, sempre se procurou abrir para a cidade.

Ter sido o primeiro premiado no concurso do OPLx13 foi uma lufada de esperança para a renovação do jardim. As obras de fundo, estruturantes, devem ser as urgentes a realizar para permitir a manutenção e sustentabilidade deste espaço único de Lisboa. Desde a sua criação, o jardim tem sentido as amarguras da falta de verbas e financiamento em detrimento de outros valores considerados na altura, como agora, de maior prioridade. Mas as condições de subfinanciamento deram corpo a uma manifestação colectiva, organizada e perfeitamente determinada de todos os trabalhadores do museu, funcionários, investigadores, bolseiros e voluntários, que transmitiram o seu carinho e angústia, motivaram empresários, lojas de bairro, cafés, a apelar ao voto junto de milhares de lisboetas. Foi uma verdadeira demonstração de dedicação cívica promovida em prol do Botânico, possibilitando o milagre da multiplicação de votos para vencer o concurso do OPLx13. Esta movimentação cívica teve um impacto maior do que muitas outras manifestações, porque uniu os medos e desesperos e potenciou a confiança em torno de uma mistura de afectos e valores, cultura, conhecimento, sensibilidade, verdadeiramente inspiradores.

Desenganem-se, porém, todos aqueles que julgam que este prémio vai resolver todos os problemas que o jardim enfrenta. Para além da degradação do jardim, há uma profunda desagregação da estrutura
humana. É bom não esquecer que um jardim botânico é um museu vivo, científico. Não pode ser cuidado nem mantido apenas com voluntários ou serviços de outsourcing, tão em voga. Por ser um jardim científico tem por detrás toda uma estrutura de investigação com base nas suas colecções, assegurada maioritariamente por bolseiros de contrato temporário. Ao longo dos últimos dez anos houve um salto qualitativo na investigação e promoção científica em torno das colecções, da conservação da biodiversidade, da digitalização e disponibilização de dados. Perante as ameaças globais, como as da mudança climática, este conhecimento é fulcral para fornecer dados necessários à predição de alterações, presentes e futuras. Tem sido ainda o jardim científico a fornecer informações ligadas às metas para a conservação da biodiversidade a que Portugal está obrigado a responder a nível internacional.

A grande maioria da sociedade desconhece ou não compreende que um jardim botânico é muito mais do um espaço lúdico; tem uma missão científica que envolve a ligação aos grandes debates sociais e ambientais. Por isso, o futuro do Botânico de Lisboa dependerá, em muito, de novas estratégias inovadoras e criativas que evitem a sangria de quadros especializados que têm sabido criar valor acrescentado e capacidade de mobilização de causas, como esta em volta do OPLx13.

Maria Amélia Martins-Loução
Professora catedrática da Universidade de Lisboa e ex-Directora do Jardim Botânico

in Jornal Público 11-11-2013

Foto: Três exemplares de Araucaria heterophylla da Ilha de Norfolque no Arboreto do Jardim Botânico (fotogarfia de Fernando Jorge)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

«Quercus considera "preocupante" predomínio do eucalipto nas florestas»

Associação considera que área será ainda superior à revelada por dados preliminares do inventário florestal.
A associação ambientalista Quercus considerou preocupante que o eucalipto se tenha tornado na espécie que mais espaço ocupa na floresta nacional, principalmente devido ao risco de propagação de incêndios florestais.
“No caso do eucalipto, é preocupante, sobretudo ao nível da propagação dos incêndios florestais. É uma situação que nós vemos com alguma apreensão”, afirmou, em declarações à agência Lusa, Domingos Patacho, da Quercus.
O PÚBLICO avança nesta quarta-feira que o eucalipto “já se tornou a primeira espécie da floresta nacional”. Domingos Patacho referiu que, para a Quercus, “não é novidade que o eucalipto seja a primeira espécie em termos de ocupação de área em Portugal”. “Há mais de dez anos que dizíamos que o eucalipto ia avançar para áreas na ordem de já quase um milhão de hectares, e não andará muito longe disso”, disse.
O ambientalista referiu ter “algumas dúvidas sobre a fiabilidade dos dados [revelados]”, porque “há povoamentos mistos que não são contabilizados como área de eucaliptal”. Por isso, Domingos Patacho calcula que “os valores serão ainda superiores em relação aos que foram anunciados”.
De acordo com a Quercus, as plantações de eucalipto acarretam impactes ambientais consideráveis sobre o território, nomeadamente uma maior erosão do solo, a alteração do regime hídrico, a perda de biodiversidade e a alteração da paisagem, para além de facilitarem a propagação dos incêndios florestais de forma muito mais significativa do que as florestas constituídas por espécies autóctones. LUSA / Público 30-8-2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

«O murchar das palmeiras»

Por Helena Freitas 06/02/2013 - Público

Controlar e assegurar a sanidade dos materiais de propagação e monitorizar e erradicar as doenças não é possível sem recursos técnicos adequados.
Nos últimos tempos, em especial quem vive nas cidades tem sido surpreendido com a mortalidade de muitas palmeiras, que subitamente desaparecem das praças e das ruas da cidade, ou dos jardins de algum vizinho.

Alguns terão mesmo respondido com mágoa a um mandado irrefutável, sendo obrigados a abater palmeiras agonizantes que ornamentavam há muitos anos os seus jardins.

De uma forma ou de outra, percebemos que há um problema grave com as palmeiras, e a própria imprensa tem feito divulgação das ocorrências e da doença que as afecta. Neste caso, o flagelo fica a dever-se à voracidade de um insecto não originário da Europa (Rhynchophorus ferrugineus), que ataca um vasto leque de palmeiras, as quais tipicamente usamos para ornamentar as avenidas e jardins de muitas cidades do país.

Este insecto já está presente em todos os países mediterrânicos e ameaça condenar a esmagadora maioria das palmeiras nesta região. A gravidade e o potencial de expansão desta doença determina que as palmeiras importadas de países terceiros afectados devem ficar em quarentena, para que as autoridades possam actuar, detectando eventuais sinais precoces da doença.

Este é um procedimento normal na prevenção da disseminação de doenças e está naturalmente previsto para as plantas. Todavia, controlar e assegurar a sanidade dos materiais de propagação e monitorizar e erradicar as doenças não é possível sem recursos técnicos adequados.

Tendo em conta a escassez de meios de que dispomos, pode admitir-se que se trata de uma situação de algum modo fora de controle.
Sendo a eficácia da praga quase garantida, e tendo em conta a escassez de meios de que dispomos, pode admitir-se que se trata de uma situação de algum modo fora de controle, pois está muito dependente do conhecimento e vigilância das pessoas e da pronta actuação das autoridades com responsabilidade nestas áreas.

Embora de natureza distinta, destaco uma outra praga que se disseminou recentemente no país, com grave impacto económico, e que a maioria dos portugueses acompanhou: a do nemátode-da-madeira-do-pinheiro ou murchidão-dos-pinheiros. Esta última deve-se à actuação da espécie Bursaphelenchus xylophilus, levando à morte do pinheiro num intervalo de poucas semanas ou meses. Os sintomas traduzem-se no rápido amarelecimento das agulhas, até atingirem uma cor vermelho-acastanhada, bem como uma súbita redução da produção de resina. A propagação do nemátode e a infecção de novas árvores depende de um insecto-vector.

Recordo estas duas situações de calamidade associadas à mortalidade de espécies vegetais, sendo uma espécie de interesse ornamental e uma espécie florestal com forte impacto económico, mas podia citar muitas outras, em particular as doenças que nunca deixam de ameaçar sectores vitais da nossa economia, como a fruticultura nacional ou mesmo o importante sector do vinho.

Ao fazê-lo, tenho dois propósitos: por um lado, manifestar a preocupação que tenho com a perda de recursos e competências do Estado para monitorizar e resolver situações fitossanitárias que são cada vez mais complexas, entre outras coisas, porque as causas também o são, e, por outro, chamar a atenção para a necessidade de pensar os ecossistemas e as espécies seleccionadas em meio urbano, não apenas pela sua expressão estética ou por conveniência de momento, mas também na perspectiva de se evitarem espécies mais susceptíveis às pragas, o que acontecerá mais facilmente quando a escolha se sustenta numa importação pouco cuidadosa de espécies exóticas, tantas vezes desadequadas aos espaços que as acolhem.

Foto: palmeira morta no Largo da Graça em Lisboa

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

«Obras no jardim do Convento da Graça começaram anos depois do prometido»

Obras no jardim do Convento da Graça começaram anos depois do prometido Por Inês Boaventura in Público

A Câmara de Lisboa garante que as árvores que estão a ser abatidas têm "problemas sanitários" ou representam um perigo para a segurança. O PCP vai pedir explicações sobre a empreitada

Se se concretizar a mais recente previsão da Câmara de Lisboa, os moradores da Graça e das freguesias vizinhas poderão usufruir a partir de Setembro de um novo jardim público, junto ao antigo convento, classificado como monumento nacional. As obras começaram no fim de Janeiro com um abate de árvores que está a gerar preocupação nalguns moradores da zona.

 A recuperação e abertura ao público da zona verde do Convento da Graça chegaram a estar previstas para Setembro de 2009 (mês das últimas eleições autárquicas) e mais tarde para meados de 2011 - um ano depois de a autarquia e o Ministério da Defesa terem celebrado um protocolo no qual se estabelecia que o imóvel do antigo quartel seria vendido para um hotel e a área verde anexa seria entregue ao município para aí fazer um jardim público.
Mas, antes disso, ainda em 2005, quando se candidatou pela primeira vez à Câmara de Lisboa, já José Sá Fernandes (hoje vereador dos Espaços Verdes) reclamava a devolução do monumento e do espaço verde anexo à população.
As obras há muito prometidas nesse espaço foram consignadas, segundo o assessor de imprensa do vereador, a 21 de Janeiro deste ano e deverão estar concluídas "até Setembro" - um mês antes das próximas eleições autárquicas. "É, a par do Campo de Santana, a maior área verde no centro histórico de Lisboa e será uma grande vitória e um enorme ganho para os moradores das freguesias circundantes", sublinha o porta--voz de Sá Fernandes, acrescentando que está em causa um investimento de cerca de 847 mil euros.
O alerta para o início dos trabalhos foi dado pelo Fórum Cidadania Lisboa, a quem um morador da Graça se queixou do facto de a autarquia não ter divulgado qualquer informação sobre a empreitada e de estarem a ser abatidas várias árvores no local. As preocupações veiculadas pelo movimento cívico chegaram ao PCP, que na próxima reunião da Câmara de Lisboa vai apresentar um requerimento pedindo explicações sobre o assunto.
Carlos Moura, do PCP, lamenta que o projecto que está a ser desenvolvido junto ao antigo convento (onde funcionou o quartel) não tenha sido dado a conhecer aos vereadores da autarquia nem tão-pouco aos residentes da Graça e das freguesias circundantes. O abate de árvores também preocupa o vereador substituto, segundo o qual estas "estão de boa saúde", baseando a sua afirmação no que viu nas fotos feitas por um morador da zona.
Questionado pelo PÚBLICO, o vereador dos Espaços Verdes garantiu, através do seu assessor, que só serão abatidas "árvores em risco de queda, com problemas sanitários ou com malformações que condicionavam a qualidade do futuro jardim". Sem precisar quantos são os exemplares em causa, a autarquia acrescenta que "as espécies vegetais que não apresentavam condições, quer por motivos de segurança, quer por razões fitossanitárias, serão substituídas por outras".
Neste novo jardim público serão plantadas 178 espécies vegetais, entre as quais 32 amendoeiras, 28 medronheiros, 22 coelreutérias, 18 pereiras e 14 ciprestes.
Quanto ao projecto que está a ser desenvolvido no local, a Câmara de Lisboa salienta que a conquista deste "espaço verde de proximidade" para a cidade "é um vector estratégico na qualificação do centro histórico e na qualidade de vida dos munícipes". Para que tenha segurança, acrescenta a mesma fonte, procurar-se-á que o jardim constitua um "espaço de atravessamento da malha urbana, que seja utilizado para encurtar distâncias, para aceder à colina e ao Largo da Graça".
Em termos práticos, a autarquia esclarece que será instalado "um relvado central regado para potenciar um recreio mais activo, mesmo desportivo, em contraponto às áreas declivosas, vocacionadas para miradouro e zonas de estar". Haverá ainda "espaços hortículas" e, "no futuro", "um equipamento do ramo alimentar, equipamento juvenil e infantil".

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"As pessoas querem classificar como património o que lhes está mais próximo"

"As pessoas querem classificar como património o que lhes está mais próximo"
Por Isabel Salema e Lucinda Canelas in Público

Na primeira entrevista, a nova directora-geral do património diz que a aprovação de projectos de reabilitação pelas autarquias não é um alienar de responsabilidades. A gestão de proximidade traz mais capacidade de intervir e de valorizar

Isabel Cordeiro chegou à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) há três meses. Até há pouco tempo directora do Palácio Nacional de Queluz, com uma larga experiência na área dos museus, a nova directora do património prepara-se para abrir cerca de 40 concursos para as chefias da maior instituição da área da Cultura, que tem quase mil funcionários. A nova direcção-geral, acabada de criar para agregar os desaparecidos institutos do Património e dos Museus e a Direcção Regional de Cultura de Lisboa, tem a seu cargo a gestão directa de museus e palácios nacionais, bem como do património mundial, e a supervisão de quase 3700 imóveis classificados.

Isabel Cordeiro, de 46 anos, diz que tem a responsabilidade de construir um cenário diferente para o património para daqui a dez anos e que este é o momento de separar as águas, depois do muito que se investiu nas últimas décadas: "Temos de ser mais polivalentes, ter mais capacidade de liderança e de competir."

"Incorrigivelmente optimista", a directora-geral admite que um dos seus grandes desafios é, agora, o de garantir uma coesão entre todos aqueles que protegem o património. "Não vejo diferenças entre ser arqueólogo, museólogo, gestor de monumento, conservador-restaurador ou director de museu. Acho estas divisões absolutamente perniciosas para uma evolução que temos de conseguir fazer."

Com um fim de ano marcado por uma maratona de classificações, diz que o que as pessoas, as comunidades, querem ver protegido pela instituição que escolhe os monumentos nacionais é tudo o que tem a ver com os afectos, os sentimentos, as memórias - o que está mais próximo.

Houve uma imensa leva de classificações. Quantos bens foram classificados desde que chegou, em Novembro, à Direcção-Geral do Património Cultural?

Em Novembro, estavam 648 processos de classificação por instruir. Foi feita uma triagem para decidir quais deixaríamos cair - foram perto de uma centena - e quais os que levaríamos até ao fim. Publicaram-se 160 portarias em Novembro e Dezembro. Desta massa de 648, havia uns que não caducavam e 171 estavam já em fase de consulta e, nesse âmbito, os prazos foram prorrogados.

Parecia que o país inteiro estava a ser classificado... Perguntaram-se se estariam a classificar bens a mais?

Obviamente, ponderei essa questão. São mares de dossiers. Faz todo o sentido que se discuta mais a diferenciação entre os níveis de classificação: monumentos nacionais, interesse público e interesse municipal. Falta uma clarificação absoluta entre os dois últimos. Há tendência para as pessoas subirem na hierarquia da classificação.

Imagine que, daqui a dez anos, olha para esta lista de classificações: o que é que ela diz sobre o que se quis proteger?

À partida, os referenciais absolutos de cultura, aquilo que mexe com a nossa identidade, aquilo que tem valor de excepcionalidade. Esse é o primeiro nível.

Fazendo a pergunta de outra maneira: pela análise do património que aqui chega com proposta de classificação, o que é que mais preocupa as pessoas, o que é que não querem perder?

O que está próximo, nas comunidades, no território. Tudo isso mexe com os afectos, com os sentimentos, as memórias. Em qualquer nível de classificação, estas coisas contam.

Por exemplo...

Na questão das batalhas, das fortalezas, dos castelos, dos castros e até mesmo de uma anta ou de um menir. Se quisermos fazer uma leitura mais distante e transversal, penso que da lista também ressalta uma preocupação de valorizar o património no seu conjunto, desde as componentes arqueológicas mais remotas até à arquitectura do século XX.

E na lista do património classificado pela DGPC também é possível identificar modas, tendências?

Sim, claro. Chega a existir algumas circunstâncias de gosto. Há os pelourinhos, as pontes... Vai ser um trabalho muito interessante construir as grandes tipologias temáticas do classificado e divulgá-las dessa forma. Esse trabalho dá uma visão muito clara do que quisemos proteger.

Já há muito pouco por classificar, no nível do património nacional?

Os conjuntos merecem um olhar porque nos permitem valorizar realidades mais difusas. Estou a lembrar-me, por exemplo, das Minas de São Domingos ou da Avenida da Liberdade.

O que é que se passa com a Avenida da Liberdade em Lisboa?

Foi apenas iniciado o procedimento de classificação, mas, na verdade, ele remonta a 1987. Desde aí para cá, alguns imóveis foram classificados individualmente. Depois de ouvidos uma série de personalidades e o conselho do património arqueológico e arquitectónico, decidiu-se avançar com o processo de classificação como conjunto, como valor de paisagem na malha urbana.

A nova lei da reabilitação urbana passa algumas competências de aprovação de projectos para as autarquias. Isso levantou críticas, porque não há directrizes padronizadas. Que balanço faz?

É preciso ver que há um pressuposto de articulação entre a DGPC e as autarquias na elaboração dos planos de pormenor e de salvaguarda...

Mas, às vezes, esses planos ainda não existem.

Precisamente por isso é que esta articulação é importante.

Por exemplo, o Arco da Rua Augusta, em Lisboa, teve muito trabalho de técnicos da casa. Agora, pessoas como o arquitecto Alves Costa vêm dizer que muito do know-how se perdeu e não foi seguido pela autarquia. O que aconteceu?

Estamos precisamente a trabalhar com a autarquia para definir, primeiramente, uma intervenção de conservação e restauro, que tem um projecto que chegou há muito pouco tempo e que tem de ser analisado aqui. Está a ser definida a logística de ocupação de via pública e de montagem de estaleiro para começar a intervenção. Vai ser cumprido o primeiro projecto do arquitecto Alexandre Alves Costa.

Ao mesmo tempo, está a ser preparado um protocolo de cedência à CML das intervenções de conservação e da exploração do monumento. Para além disso, há a velha questão das acessibilidades [o elevador] que está em estudo. Estamos a trabalhar em conjunto.

Alguns dos 16 ou 17 monumentos que estavam afectos à antiga Direcção Regional de Lisboa e Vale do Tejo e que agora passaram para a DGPC estão a ser transferidos para as autarquias: é o caso do Convento de Jesus, em Setúbal, da Sé de Santarém... Uma gestão de proximidade traz muitas vezes uma capacidade mais directa de intervenção e valorização. Agora, isso não quer dizer nunca um alienar das responsabilidades - são imóveis classificados. Temos responsabilidades de acompanhamento e de autorização.

Muitas dessas coisas são frágeis, o que quer dizer que qualquer intervenção realizada é depois muito difícil de desfazer...

Não se trata de desfazer, porque ela tem de ser previamente aprovada. Não há aprovações a posteriori, quando se trata de património classificado.

Há um aumento das classificações, uma diminuição dos quadros de pessoal. E ainda os licenciamentos em zonas especiais de protecção?

Há menos obras e, por isso, menos processos a carecerem de avaliação. Os de Lisboa e Vale do Tejo vêm aqui, os de todo o resto do país são instruídos pelas direcções regionais e, no fim, recebem um parecer vinculativo da nossa parte. Os processos são analisados para confirmação - não se assina de cruz. Depois são inseridos no portal online.

O que é que falta classificar?

Devemos olhar para o património do século XX. Aí há coisas que julgamos já estarem classificadas e que não estão.

Como por exemplo...

A Reitoria da Universidade de Lisboa, os edifícios das faculdades de Letras e de Direito. Se me perguntassem há três meses, diria que estavam classificados. É o ano da arquitectura, temos arquitectos absolutamente de excepção...

Faz sentido classificar obras de pessoas vivas?

Penso que sim.

Já temos distanciamento suficiente para isso?

Não pode haver uma precipitação, mas também não podemos deixar passar tanto tempo que não reconheçamos o seu impacto... É muito importante que o factor de identidade e de memória seja valorizado com aquilo que é a produção contemporânea. Não temos de ficar em 1950.

O gosto não interfere?

Interfere em qualquer época.

Em relação ao Orçamento do Estado (OE), o que estava previsto era um corte de 23%, por causa, precisamente, da passagem dos 15 museus para as direcções regionais. Quanto dinheiro vai ter para gerir em 2013 e que parte dessa verba é para investimento?

Já houve cortes significativos em 2012. Em 2013, a realidade com que temos de trabalhar, já com fundos comunitários, anda perto dos 40 milhões. Cerca de 13 são receitas próprias e 19 milhões vêm do OE. Cerca de 6,8 milhões são para investimento. O que é extremamente importante é 39% sejam receitas próprias. Estes monumentos e museus têm também uma importância económica.

Os cortes no investimento vão deixar projectos para trás?

A suborçamentação crónica é uma tendência da última década. Não podemos continuar a trabalhar a pensar na dotação do OE. Há um novo paradigma. Temos de aumentar as receitas próprias para diluir o peso do OE, de pensar em fontes de financiamento alternativas. O mecenato existe e, independentemente de ser mais consistente ou mais pontual, faz uma grande diferença na programação de museus e palácios. Mas há outras fontes alternativas, como os fundos comunitários do QREN. Veja-se as rotas dos mosteiros, o mecenato da Cimpor para o restauro da charola do Convento de Cristo.

Nos museus, essa capacidade aplica-se, quase em exclusivo, ao Museu Nacional de Arte Antiga, ou não?

Também ao Museu do Chiado, ao Palácio Nacional de Mafra, ao Convento de Cristo. Os grandes monumentos têm capacidade para atrair fontes de financiamento externas para a reabilitação, conservação, investigação científica...

O que é que vai acontecer ao Museu de Arqueologia (MNA)? A solução da Cordoaria foi definitivamente abandonada?

O MNA está onde está e vai comemorar os seus 120 anos. A questão da Cordoaria não está equacionada, neste momento.

A arqueologia não está representada na direcção da DGP. Esta é uma área em perda?

Antes, nada na orgânica estava orientado para a arquitectura. Nos tempos que correm, não podemos ser tão territoriais e sectaristas. Foi minha absoluta preocupação não ficar refém de uma orgânica. O que está para trás, está para trás. Como costumo dizer, trabalho com adquiridos. Não sinto absolutamente nada a perda de protagonismo de uma área em detrimento da outra.

Toda a gente a vê como uma pessoa dos museus...

Porque trabalhei em museus metade da minha vida profissional. O regulamento de trabalhos arqueológicos está concluído e está neste momento a ser apresentado ao secretário de Estado.

Qual é aqui o seu maior desafio?

Criar uma relação de proximidade acrescida com as equipas que estão nos museus e monumentos dando-lhes, porém, autonomia funcional.

O que é que isso significa?

Que os dirigentes têm capacidade de elaborar propostas, encontrar parcerias, e a responsabilidade de incorporar no seu trabalho competências de gestão hoje indissociáveis do património. As equipas são boas. Temos de confiar nelas ou então mudá-las. Internamente, temos de conseguir pôr as equipas dos serviços centrais a reflectir, a sistematizar experiências e conhecimentos e a divulgá-los para o exterior. Diria que a disponibilização da informação é estratégica. Tem de chegar actualizada a toda a gente. A importância do inventário nas suas várias componentes é central. Um dos grandes desafios são as relações internacionais entre instituições que foram decaindo nos últimos sete ou oito anos, por força das circunstâncias e da escassez de recursos. As relações internacionais têm de se cultivar, como a amizade. Temos de tentar voltar lá.

Foi precisamente no inventário do património móvel que começou. Como vão ser as equipas daqui a dez anos, quando a sua geração estiver a sair?

Bom, nós ainda somos novos. Tenho uma visão incorrigivelmente optimista. Há sectores muito deficitários, como a conservação e restauro, em que o trabalho está alicerçado em parcerias com as universidades. Essa é uma área importantíssima e emergente para a continuidade da investigação científica em sectores-chave. Mas há pessoas muitíssimo válidas que ainda lá estão a dar o litro, e isto tem de ser dito, senão ficamos num culto miserabilista de fim de época. Vamos ter de ser mais polivalentes, ter mais capacidade de liderança e de competir por fontes de financiamento. E outro factor crítico de sucesso é a coesão entre todos aqueles que gerem património. É por isso que não vejo diferenças entre ser arqueólogo, museólogo, gestor de monumento, conservador-restaurador ou director de museu. Acho estas divisões absolutamente perniciosas para uma evolução que temos de conseguir fazer. Temos a responsabilidade de construir um cenário completamente diferente para daqui a dez anos. Acredito que este contexto é muito propício para clarificar águas.
Foto: Palácio Nacional da Ajuda, sede da SEC e da Direcção-Geral do Património Cultural

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

«A história de um cedro que o vento levou»


O "cedro de São José", na verdade um cipreste que é parte da história da mata do Buçaco, resistiu a tudo até durante mais de 300 anos. O mau tempo de sábado deixou-o à beira do fim.
 
Os últimos dias têm sido de uma grande agitação, e tudo por causa do mau tempo deste fim-de-semana. Pela mata do Buçaco, no Centro do país, andam dezenas de pessoas atarefadas a tentar resolver os estragos causados. Preocupam-se com milhares de árvores derrubadas, mas com uma em especial. É o centenário cedro do Buçaco que mais os comove, e isto porque se agarra a uma réstia de vida.
 
Plantado em 1644, ou talvez antes, o cedro do Buçaco já viveu muito. O seu nome científico – Cupressus lusitanica – sugere tratar-se de uma espécie portuguesa. Mas, na verdade, estima-se que a Ordem dos Carmelitas o tenha trazido das regiões montanhosas do México, da Guatemala e da Costa Rica.
 
Foi o naturalista Philip Miller quem descreveu a espécie, em 1768, a partir de exemplares que viu no Buçaco, quando lá esteve nessa altura. Daí o engano quanto à origem da árvore.
 
Apesar da sua classificação como um cipreste, a árvore foi popularmente reconhecida como um cedro e lá ficou no coração da mata do Buçaco, ao lado da Ermida de São José e, em honra deste santo, partilhou com ele o nome. Chamam-lhe "cedro de São José".
 
Ao longo de quase quatro séculos, resistiu a muitas chuvas e ventos e até a um ciclone, em 1941 – data das maiores rajadas de vento de que há registo em Portugal. Viveu situações que apenas os livros podem contar e neste fim-de-semana ficou com a vida em risco.
 
Restou o tronco
"É apenas um tronco e um pequeno ramo de pé", descreve Milene Matos, investigadora do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro. Milene trabalha na Fundação da Mata do Buçaco há dez anos e há dez anos que estava habituada a ver os cerca de 5,5 metros de perímetro do tronco castanho-avermelhado do cedro de S. José rodeados de crianças em visitas escolares.
 
Foram dez anos – e muitos outros antes – de boas recordações e, por isso, no sábado do temporal, não resistiu quando olhou para a árvore. "Chorei baba e ranho. É quase como perder uma pessoa. É uma perda irrecuperável e um sentimento de impotência perante um acidente fortuito como este", explica a investigadora, que conhece quase de cor os 105 hectares e as mais de 250 espécies de árvores e arbustos da mata.
 
Helena Mergulhão é voluntária desde que a fundação abriu portas, em 2009, e também ela anda agora na luta para devolver ao Buçaco a tranquilidade que os carmelitas tanto apreciavam no século XVII. "Quando se entrava na mata do Buçaco, era um paraíso para quem gosta da natureza", conta, comovida, numa entrevista por telefone. "Estou a dizer-lhe isto e as lágrimas correm-me pela cara abaixo", acrescenta. Ouvem-se. De repente, param e dão lugar à indignação: "Quando cheguei à mata, entrei em pânico e chorei. Andámos nós anos a lutar sem meios, recebemos centenas de turistas, e não temos apoios. Os meios são os nossos braços e pernas."
 
Ao longo dos anos, o "cedro de S. José" sempre foi alvo de curiosidade de turistas e visitantes nacionais que, em excursões à Mealhada, na mata do Buçaco, eram apresentados a uma árvore verde de grande importância: a primeira espécie exótica introduzida no Buçaco, o cedro mais antigo de Portugal e, provavelmente, da Europa.
 
Às crianças, em vez de se falar no bispo de Coimbra D. Manuel, que, em 1628, entregou a mata aos carmelitas, contava-se a história do duende Alcino, um heterónimo inventado para atrair os mais novos. O nome era diferente, mas a bondade e o amor pela natureza eram os mesmos.
 
Acesso difícil
Agora, depois de milhares de árvores terem sido derrubadas pelo vento, o acesso ao cedro tornou-se difícil. Difícil de mais para as pernas de Henrique Gonçalves, que, passados 82 anos, já tiveram outra força. Entrou pela primeira vez na mata do Buçaco em 1945. "Ajudei a plantar os fetos e árvores e arbustos do jardim", conta. Em 1960, passou a guarda-florestal e viveu cinco anos na mata. "Aquilo marca uma pessoa e deixa saudades". Por isso, volta todas as semanas, geralmente aos domingos, e também ele não conseguiu conter as lágrimas ao saber que a relíquia da mata pode estar perto do fim.
Até esta quinta-feira, a fundação vai continuar fechada ao público e, nos próximos meses, o cedro não poderá ser visitado. "Já foram técnicos especializados ao local para ver o que se pode fazer, como sarar as suas feridas", diz o presidente da Fundação da Mata do Buçaco, António José Franco, acrescentando que talvez em Março se possa ver o ex libris natural do Buçaco.
 
A incógnita permanece sobre a mata do Buçaco, embora todos estejam confiantes de que um cedro que já viveu mais de 300 anos poderá viver outros tantos. "Ele sempre esteve de saúde, nada disto se previa", diz Milene Matos, referindo-se ao efeito, na árvore, das fortes rajadas de vento que fustigaram a mata neste fim-de-semana. "Eu acredito que ele vai dar a volta por cima e voltar a ser a nossa jóia", considera António José Franco. O quadro clínico poderia ser melhor, mas, enquanto existirem folhas verdes, há esperança. in PÚBLICO, 23 de Janeiro de 2013
 
Foto: Cedro do Buçaco, ou Cedro de São José, fotografado em Novembro de 2012

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Lisboa: entrada do Jardim Botânico pela Praça da Alegria vai reabrir ao público

A entrada do Jardim Botânico de Lisboa, junto à Praça da Alegria, encerrada há vários anos vai reabrir ao público no dia 10 de Junho, com um posto turístico, anunciou a Junta de Freguesia de São José.

O posto turístico fornecerá aos visitantes informação associada à preservação histórica da cidade e do jardim, fundado em 1858, que tem uma grande variedade de árvores e espécies tropicais.

A decisão de reabrir a entrada do jardim junto à Praça de Alegria surgiu na sequência de um protocolo assinado ontem entre o presidente da Junta de Freguesia de São José, João Miguel Mesquita, e o Reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa. O protocolo permite ainda o acesso gratuito de todos os idosos da freguesia de São José ao Jardim Botânico.

A abertura realizar-se-á no 10 de Junho e terá como horário de funcionamento, nos dias úteis, das 10h00 às 20h00, e das 10h00 às 20h00 aos sábados, domingos e feriados.

"A Junta de Freguesia de São José contribuiu assim para o aumento da divulgação deste jardim de grande importância na cidade", refere a junta em comunicado. in Público de 26 Maio 2007

Nota da LAJB: este projecto, muito louvável, não teve infelizmente execução e o Portão da Alegria continua encerrado. O nosso desejo para 2013 é que o Portão da Alegria volte a abrir as suas portas a todos os cidadãos. BOM ANO NOVO!

domingo, 28 de outubro de 2012

Câmara retirou reclamo ilegal nove meses depois de ter ordenado a remoção

Câmara retirou reclamo ilegal nove meses depois de ter ordenado a remoção

Por José António Cerejo in Público, 28 Setembro 2012

Reclamo rotativo colocado ilegalmente no topo do Hotel Vintage há dois anos foi agora removido coercivamente

A Câmara de Lisboa procedeu anteontem à remoção coerciva de um reclamo luminoso, rotativo e de grandes dimensões, instalado ilegalmente, há vários anos, na cobertura do Hotel Vintage, ao alto da Rua do Salitre. O despacho que ordenou a retirada do dispositivo foi assinado pelo vereador José Sá Fernandes, a 28 de Setembro, oito meses depois de o próprio ter concedido 30 dias aos proprietários do hotel para o fazerem voluntariamente.

Apesar do incumprimento dos donos do hotel (grupo Carlos Saraiva), a câmara só agora decidiu, passados oito meses e após insistentes protestos da Liga dos Amigos do Jardim Botânico e do Fórum Cidadania, fazer cumprir a ordem emitida 24 de Janeiro deste ano.

O grupo Carlos Saraiva detém numerosas empresas hoteleiras e imobiliárias, grande parte delas em processo de insolvência e com centenas de funcionários despedidos e com salários em atraso, e tinha entre os seus administradores a antiga vereadora do Urbanismo da Câmara de Lisboa Margarida Magalhães e o antigo chefe de gabinete de João Soares, quando este era presidente da autarquia, Tomás Vasques.

O reclamo agora retirado foi colocado no topo do edifício em 2010 sem qualquer autorização camarária, apesar de esta ser exigida por lei e de o imóvel se situar na zona de protecção do Jardim Botânico - sítio classificado como monumento nacional. Posteriormente à sua instalação, a empresa requereu à câmara a respectiva licença, a qual foi indeferida com base nos pareceres negativos da Direcção Regional de Cultura. Mais tarde conseguiu que a autarquia aprovasse um reclamo mais pequeno e não rotativo (ignorando um novo parecer negativo da Cultura), mas nunca de lá retirou o que tinha colocado inicialmente.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

«Concluída a primeira fase das obras de recuperação do Jardim Botânico»



Espaço, que é monumento nacional, tem a partir de hoje melhores condições para receber visitantes, diz a reitoria da universidade

As entradas no Jardim Botânico de Lisboa vão ser gratuitas até ao fim do mês. Para assinalar o termo da primeira fase das obras que ali foram efectuadas pela Universidade de Lisboa, realiza-se hoje, pelas 19h, uma cerimónia presidida pelo reitor António Sampaio da Nóvoa. Quem chega à Rua da Escola Politécnica, entre o Rato e o Príncipe Real, sabe que está prestes a encontrar um sítio que foge ao bulício da cidade de Lisboa. "Cria-se uma espécie de bolha neste jardim", diz Ireneia Melo, investigadora principal do Jardim Botânico de Lisboa. E essa bolha surge não só pela descida de temperatura que se faz sentir, mas também pelo ar idílico que se respira. Nos seus quatro hectares, o jardim acolhe plantas e árvores de todo o mundo."As pessoas vêm aqui para ver alguma coisa de exótico. Vêm ver como as plantas se adaptam aos vários ecossistemas. E depois vêm ouvir o silêncio", salienta.
E é essa calma que acaba por atrair os visitantes. Por ano recebe cerca de 75 mil pessoas. "Somos sobretudo visitados por grupos de crianças, alunos de Belas Artes e turistas. Os portugueses não visitam tanto, mas são os que mais criticam", comenta a investigadora, referindo-se às polémicas sobre as obras efectuadas.
Durante os últimos anos, o jardim foi alvo de muitas críticas, uma vez que a falta de financiamento se reflectia na deficiente manutenção e vigilância. O espaço estava cada vez mais degradado, pondo em causa a sua própria identidade. Mas, segundo Ireneia Melo, as mudanças foram poucas. "As coisas estão conservadas e mais limpas. Os arruamentos principais foram nivelados, colocou-se areão, taparam-se buracos, pintaram-se os bancos e arranjaram-se as pontes. Agora até se pode de ouvir a água a correr, o que não acontecia há mais de dez anos."
Jacinto Leite, responsável pelas obras, diz que "a base de saibro [areia argilosa] estava destruída e só se encontravam pedras". Fez-se uma limpeza e recuperou-se o aspecto original com saibro enriquecido com argamassas. "Não fizemos uma mudança significativa", garante. "Reabilitámos os regatos com materiais recentes e que lhes deram um suporte melhor para que a pressão da água não perfurasse". De forma a monitorizar a humidade do solo, Catarina Silva e Albino Medeiros, ambos professores na Faculdade de Ciências, desenvolveram um estudo hidrogeológico que levou à instalação de piezómetros para medir a água do terreno.
Segundo um comunicado da reitoria da universidade, as obras feitas foram "o primeiro passo para uma recuperação mais profunda". A partir do próximo ano haverá uma reabilitação das cisternas, um novo sistema de rega, a reabilitação da estufa, a reposição dos viveiros e ainda a construção de infra-estruturas de apoio ao jardim e aos visitantes.
"As pessoas têm de pensar que um jardim botânico não é um jardim de um hotel, onde só tem que ter flores bonitas, onde não pode haver uma ervinha fora do canteiro. No jardim botânico tem de haver tudo", conclui Ireneia Melo. in Público

sábado, 12 de maio de 2012

«...numa sociedade que se deixou arrastar por um mercantilismo cego»


"De facto, estamos perante a superação de um entendimento já ultrapassado, segundo o qual as políticas de proteção, conservação e defesa do património se contrapunham às modernas políticas públicas da cultura, para as quais a economia e a coesão social têm tudo a ver com as ações dos criadores. A cultura não é um campo excêntrico no âmbito das políticas sociais. Está cada vez mais no centro da inovação e da criatividade. A crise financeira, cujos efeitos duramente sentimos, deve-se à especulação, à ilusão, ao imediatismo e à desvalorização da criação e da cultura. Compreendendo-se que aquilo que mais vale é o que não tem preço, numa sociedade que se deixou arrastar por um mercantilismo cego, pelo fundamentalismo do preço e pela lógica de casino, temos de entender que, longe de ser um luxo, a cultura (vista num sentido amplo, ligada à educação e à ciência) está no coração das políticas públicas contra a crise."
Guilherme de Oliveira Martins no Público de 18 Abril 2010
Foto: pintura a fresco no Palácio Pombal em Lisboa

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Câmara de Lisboa perde Parque Mayer em tribunal e recupera Feira Popular

Permuta de terrenos
Câmara de Lisboa perde Parque Mayer em tribunal e recupera Feira Popular

A Câmara de Lisboa perdeu a posse do Parque Mayer, tendo, em compensação, ficado outra vez proprietária da Feira Popular. O Tribunal Central Administrativo anulou o negócio firmado pelo município com o grupo Bragaparques há sete anos, confirmando assim uma sentença proferida pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa em 2010. A decisão do tribunal surge numa altura em que a Câmara de Lisboa já iniciou obras de recuperação do teatro Capitólio, situado no Parque Mayer – propriedade que, por via desta sentença do Tribunal Central Administrativo, deixou de ser sua e passou a pertencer outra vez à Bragaparques. A declaração da nulidade da permuta de terrenos pelos tribunais resulta de uma acção popular do hoje vereador José Sá Fernandes, que entendeu em 2005 que o negócio firmado com a Bragaparques era ruinoso para o município. O porta-voz do autarca disse ao PÚBLICO que o vereador considera o acórdão “uma grande vitória”. Já o administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, remeteu para segunda-feira, em hora e local ainda a designar, esclarecimentos sobre o acórdão do Tribunal Central Administrativo. “Já tenho conhecimento do que está a dar na comunicação social e só posso concluir que não estão a entender nada de nada do acórdão”, disse Domingos Névoa à agência Lusa. Quando o Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa desfez o negócio, em 2010, a Bragaparques recorreu da sentença.

in Público 3-4-2012, por Ana Henriques

domingo, 25 de março de 2012

F de FLORES

Não, não é engano. Está a ler o dicionário dos alimentos e esta semana em comemoração da chegada (oficial) da Primavera vamos falar de flores. Há cada vez mais pratos e chefs que utilizam flores comestíveis - mais do que ornamentação, pertencem ao domínio dos sabores.
Em rigor, a incorporação de flores na nossa alimentação não é uma ideia propriamente nova, uma vez que brócolos e couve-flor já nos acompanham há algum tempo e que muitas infusões foram feitas, ao longo dos anos, com flores como a camomila, a rosa ou a alfazema. No que concerne às flores, o primeiro passo é mesmo saber se são comestíveis. O simples facto de ser apresentada num prato não é sinónimo de comestibilidade. E duas espécies idênticas podem ter sofrido tratamentos distintos que tanto as podem tornar comestíveis ou única e exclusivamente aptas para efeitos de ornamentação. A solução passa por adquiri-las em locais adequados para o efeito, que já não são assim tão escassos. Passada a barreira da comestibilidade, todo um mundo de vantagens floresce aos nossos olhos - e já agora no nariz, pois as flores, não entrando na categoria das ervas aromáticas, são efectivamente alimentos que se cheiram, mais do que alimentos que se comem. Sendo este interesse na sua vertente gastronómica relativamente recente, é expectável que poucos dados existam relativos ao seu valor nutricional. Ainda assim, como seria de esperar, as flores são genericamente pouco calóricas uma vez que são compostas por mais de 90% de água. Os macronutrientes que se destacam (ainda que em pequena quantidade) são naturalmente os hidratos de carbono, fruto dos açúcares existentes no néctar e pólen. Estes, juntamente com as pétalas, são fonte de diversas vitaminas (A e C em grande destaque) e fitoquímicos que variam consoante a flor. Assim, não existem grandes dúvidas em afirmar que as flores são provavelmente as mais sublimes fontes de antioxidantes presentes na nossa alimentação, não sendo de esperar que, quer pela quantidade quer pela frequência de consumo, possuam um grande impacto na nossa saúde. Vencida a reticência inicial em provar flores, a sua versatilidade só tem os limites da nossa imaginação. Saladas, risotto, piza, crepes, geleias, cubos de gelo, chás ou vinagres ganham assim um ingrediente novo que dá aroma, beleza e também saúde. in Público 20.03.2012

Por Pedro Carvalho, nutricionista, Professor Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Foto: Chef Vincent Farges na apanha de flores.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Plataforma de Cidadãos apela ao chumbo do Plano de Pormenor do Parque Mayer

PLATAFORMA DE CIDADÃOS APELA AO CHUMBO DO PLANO DE PORMENOR DO PARQUE MAYER

Plano prevê mais de 30 mil metros quadrados de construção nova, o que é contestado pelas associações

Organizações que integram movimento em defesa do Jardim Botânico dizem que a proposta viola a Lei do Património e exigem uma "real revisão" do planoA Plataforma Em Defesa da Missão do Jardim Botânico de Lisboa, que inclui 15 organizações, faz hoje um último apelo aos deputados da Assembleia Municipal para não aprovarem o Plano de Pormenor do Parque Mayer, que vai ser votado esta tarde. Num comunicado que vai enviar aos membros da assembleia, a plataforma critica o plano por ser "excessivo na construção nova" e "insuficiente na salvaguarda do Jardim Botânico", e exige que o documento seja refeito.

"O plano não cumpre a Lei do Património, que exige a criação de uma zona especial de protecção com 50 metros. As construções previstas distam apenas 1,2 metros da cerca do jardim", aponta Manuela Correia, presidente da Liga dos Amigos do Jardim Botânico, membro da plataforma.

O Plano de Pormenor para o Parque Mayer foi aprovado pela Câmara de Lisboa a 20 de Julho, com os votos favoráveis do PS e do PCP e a abstenção do CDS e do PSD. A votação na Assembleia Municipal tem vindo a ser adiada desde então por falta dos pareceres das comissões especializadas, entretanto concluídos.

O parecer da comissão de cultura é favorável e considera o plano "essencial" para a recuperação do Parque Mayer, do Jardim Botânico e da área envolvente. O documento elogia a intenção "notória" de criar equipamentos culturais naquele espaço e a preocupação com a recuperação dos logradouros.

Oposição mantém reservas

Por sua vez, a comissão de acompanhamento do Plano Director Municipal (PDM) aponta "várias incongruências" no reconhecimento do Jardim Botânico como Monumento Nacional e critica, entre outras falhas, a ausência de um plano de pormenor de salvaguarda, previsto na legislação. No parecer, a comissão critica também a inexistência de "soluções concretas" que garantam a sustentabilidade do Jardim Botânico. A falta de um programa de execução e de um plano de financiamento, obrigatórios por lei, é outro problema identificado.

E essa é também a principal crítica feita pelo PSD, que mantém reservas em relação à proposta. Embora considere que "as dúvidas e impasses" sobre o Parque Mayer se arrastam "há demasiado tempo", o deputado social-democrata António Prôa garante: "Não aprovaremos um plano ilegal."Também o vereador do CDS António Carlos Monteiro tem "dúvidas" em relação à solução encontrada para aquela zona. O partido absteve-se, tal como o PSD, de votar o documento na reunião de câmara, por entender que as infra-estruturas previstas para o Parque Mayer "não foram devidamente enquadradas nas exigências do PDM", nomeadamente em relação ao estacionamento necessário. Apesar de terem sido introduzidas "melhorias" no plano, as dúvidas mantêm-se, diz o vereador. As "modificações pontuais" ao plano e a realização de um estudo hidrogeológico são "insuficientes para fazer dele um bom plano de pormenor", considera a plataforma, que inclui a Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas. Em Novembro, esta associação criticou o que considera ser a "privatização parcial" do recinto do Parque Mayer, uma posição subscrita pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. Numa nota enviada à comunicação social, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, contrapôs que aquele espaço é do domínio privado municipal e que a proposta não faz referência ao estatuto da propriedade, nem define áreas para habitação.

Jornal PÚBLICO - Marisa Soares, 10 de Janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

«Sobreiro já é a Árvore Nacional»

A partir desta quinta-feira, o sobreiro é a Árvore Nacional de Portugal, depois de um projecto de resolução aprovado, por unanimidade, na Assembleia da República e de uma petição pública com 2291 assinaturas. A petição para consagrar o sobreiro (Quercus suber) como um dos símbolos do país foi lançada em Outubro de 2010 pelas associações Árvores de Portugal e Transumância e Natureza. Hoje, passado pouco mais de um ano, o sobreiro conquistou o hemiciclo. “A partir de agora, abater um sobreiro não será apenas abater uma árvore protegida, mas sim, um símbolo nacional”, disse ao PÚBLICO o deputado socialista Miguel Freitas, relator do projecto. “O consenso total na Assembleia da República foi muito importante”, acrescentou. O sobreiro é espécie protegida pela legislação portuguesa desde 2001. Mas essa protecção não foi suficiente para travar a regressão da árvore em território português, motivada por “práticas erradas, nomeadamente de mobilização de solo que danificam as raízes, e doenças ou a combinação das duas situações”, salientou Miguel Rodrigues, da associação Árvores de Portugal. Além disso, “a lei que protege o sobreiro está constantemente a criar situações de excepção para empreendimentos que permitem o abate de árvores”.

Miguel Rodrigues adianta que, depois da criação de um logótipo simbólico, será estudada a criação de uma “plataforma de trabalho que abranja tudo o que tem a ver com o sobreiro, desde associações a câmaras, universidades, indústrias e Estado. Actualmente não há integração de conhecimentos para suprir as necessidades”. O sobreiro, árvore mediterrânica com mais de 60 milhões de anos, ocupa uma área de cerca de 737.000 hectares dos mais de 3,45 milhões de hectares de floresta em Portugal, segundo o último Inventário Florestal Nacional, de 2006. Hoje é responsável por 10% das exportações nacionais. “De momento, a cortiça é um dos produtos mais importantes da economia nacional”, salientou o deputado Miguel Freitas.

Mas a sua importância não se esgota na cortiça. “Esta árvore representa o montado, um dos ecossistemas mais importantes da Europa e as espécies ameaçadas que dele dependem”, acrescentou. in Público, 22.12.2011 Helena Geraldes

domingo, 4 de dezembro de 2011

«Nove razões para chumbar este plano do Parque Mayer»

Nove razões para chumbar este plano do Parque Mayer

Opinião

4 Dezembro 2011 Edição Público Lisboa

O Plano de Pormenor do Parque Mayer, Jardim Botânico e Zona Envolvente está para aprovação na Assembleia Municipal de Lisboa. Um plano de pormenor para esta zona é uma oportunidade única de inverter a tendência negativa e de abandono de algumas das áreas abrangidas pelo plano. Infelizmente muita da oportunidade do plano não foi ainda aproveitada. Assim importa chumbar esta versão na assembleia municipal e devolvêlo à câmara para que esta o reformule.

1. O Plano de Pormenor do Parque Mayer tem pouca qualidade, sendo que algumas das lacunas (quer ao nível dos elementos em falta, quer ao nível do conteúdo dos mesmos) só foram colmatadas após chamadas de atenção da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, outras entidades e de algumas das participações em sede de discussão pública;

2. Alguns dos estudos que acompanham o plano de pormenor são vagos, algo aliás reconhecido por diversas entidades em sede da conferência de serviços. O estudo hidrogeológico só foi feito posteriormente à discussão pública, e após diversas críticas de associações profissionais, associações cívicas e cidadãos terem questionado a ausência deste estudo;

3. A Câmara de Lisboa assumiu que áreas que hoje estão impermeabilizadas com parques de estacionamento e ocupações legais e ilegais de logradouros devem continuar a ser impermeabilizadas, desenhando e propondo novos arruamentos (um arruamento paralelo à Rua do Salitre e outro à Rua da Alegria). O plano opta por não aumentar a permeabilização de parte da sua área, e continuar a permitir mais impermeabilização, como são exemplos os edifícios recentes na Rua do Salitre. O aumento de impermeabilização é claramente contrário às ideias e valores de referência de impermeabilização de logradouros definido no actual e no futuro plano director municipal;

4. Crê-se que a criação de novos arruamentos no interior do quarteirão pouco deve trazer de novo e essencial à zona, dada a sua pouca atractibilidade e grandes diferenças de declive. Seria preferível melhorar as ruas existentes que fazem a ligação entre a parte baixa (Parque Mayer) e a parte alta (Rua da Escola Politécnica);

5. O plano propõe novas edificações praticamente encostadas ao muro do Jardim Botânico. O plano não possui normas de protecção a este recém-classificado monumento nacional, nomeadamente através da criação de uma zona de desafogo e protecção ao mesmo;

6. A versão final do plano abdica, positivamente, dos dois novos edifícios que anteriormente propunha para o Jardim. No entanto, não propõe alternativa, evitando reorganizar e repensar os usos e funções do edificado existente;

7. O plano de pormenor não tem nem um programa de execução, nem um plano de financiamento. Apenas existe uma estimativa dos custos por metro quadrado. Não sendo claro como e quando será executado o que consta do plano;

8. Também não constam quaisquer mecanismos de perequação compensatória de benefícios e encargos, entre os diversos proprietários na área do plano de pormenor. Disto resulta que o elo mais fraco ( Jardim Botânico) continuará num estado de declínio, principalmente por falta de fundos para obras, seja de recuperação, seja simplesmente de manutenção. Não consta da proposta do plano qualquer vínculo com receitas de impostos ou outras receitas que contribuam para um fundo de recuperação do Jardim (que urge ser criado), nem existência de uma estimativa global dos valores que o referido fundo deve ter em conta no seu dimensionamento;

9. Conforme admitido nos debates da discussão pública, o modelo actual de financiamento/ gestão do Jardim Botânico não funciona. A Universidade de Lisboa não tem conseguido inverter o declínio do jardim, e a Câmara de Lisboa não quis ser mais que um actor secundário no Plano de Pormenor do Parque Mayer, não aproveitando as potencialidade de fazer um plano de pormenor para esta área.

João Belard Correia

Engenheiro do Território